NOVE HORAS DA MANHÃ

Da janela do ônibus Ipiranga, vi apenas os dois pés. O corpo, incluso cabeça, estava coberto por um tecido grosso que, assim do alto e de longe, mais parecia um papelão, mas era tecido. Aparecia apenas os pés, sujos, maltratados, calejados. Estava ali exposto no chão, debaixo do Viaduto Presidente João Goulart, aquele que foi deposto para evitar o comunismo, para criar um país novo, que iria um dia pra frente, Brasil. As pessoas que passam desviam do morador de rua ali deitado, como desviam de uma pedra. Nem olham. O ônibus está parado esperando o sinal abrir e ninguém olha para o homem dos pés. Qual é o seu nome? O número do seu CPF? O que foi na vida? O que é hoje? Aflito, espero o sinal abrir e chegar em casa a tempo de ver o telejornal que vai falar de bilhões que o governo vai economizar em dez anos. Vai dar a cotação do dólar, do temporal que desabou no Rio hoje, ontem em Brasília. Mas não vai falar dele, um homem que se resume em dois pés sujos ali expostos a visitação pública. E ninguém vê.

[foto Alberto Villas]

Oplakivanje Krista, Andrea Mantegna (detalhe)

[cerca de 1475]

PASSAGEIROS

Eles vinham animados conversando sobre a vida, no banco bem atrás ao meu, rumo ao Paraíso. Não conseguia concentrar a leitura em Devoção, linhas bordadas por Patti Smith. Fechei o livro, bisbilhoteiro que sou, e virei todos os ouvidos para os dois. Pensava comigo mesmo que havia chegado a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Pareciam alegres naquela hora da manhã, tão cedo, tão quente. Virei pra trás e com o celular na mão, perguntei se poderia tirar uma foto dos dois, por serem bonitos por fora e por dentro. “Pode sim, depois me manda pelo zap?” Mando sim. Boa viagem, Rodrigo e Laís.

[AV]

JORNALISMO

Uma rápida espiada nas primeiras páginas de dois jornais conservadores brasileiros e na primeira página do jornal português Público, deste domingo, 10, percebemos o motivo de os jornais estarem morrendo por aqui. O discurso de Lula ontem, em São Bernardo, foi o fato principal do dia. Ou não? Os jornais brasileiros acharam que não. Triste visão. [AV]

A VOLTA AO MUNDO EM 15 MINUTOS

Ele entrou assim de repente e se agarrou na barra de ferro amarela que fica bem ao lado da porta de entrada, em frente a porta de saída, junto a sanfona do ônibus. Cabeça baixa, não chamou a atenção de praticamente nenhum dos passageiros, uns vinte, todos entretidos com os seus smartphones, surdos com os seus fones de ouvido.

Apenas a cobradora, uma mulher com os dedos cheios de anéis e os olhos pintados de azul, olhou para ele de cima a baixo, mas desviou o olhar assim que começou a falar sozinho. As cobradoras estão acostumadas com pessoas como ele, que entram nos ônibus e se recusam a passar na catraca, descem pela porta da frente. Andarilhos, anárquicos, livres.

Era um senhor que aparentava uns sessenta e poucos anos, maltratado pela vida. Vestia um jogging azul quase preto, ruço, uma camiseta cinza com os dizeres University of Florida, bem surrada, certamente comprada na 25.  Ele calçava um par de sapatos empoeirados, sem meias. O homem não olhou para ninguém, e de cabeça baixa ficou. Parecia ter os olhos fixos para o chão sujo de pó, gasto pelo tempo, típico de coletivo. Quase não se movimentava, mesmo com os solavancos que o motorista dava, a cada partida.

Eu poderia ir pra Lima, no Peru

Pequim, na China

Bogotá, na Colômbia

Buenos Aires, na Argentina

Eu poderia ir pra Nova Delhi, na Índia

Londres, Inglaterra

Paris, França

Berna, Suíça

Montevidéu, Uruguai

O ônibus sacudia muito, fazia curvas fechadas, seguia por retas e voltava a fazer curvas, rasgando a cidade, rumo a Avenida Paulista. O calor lá fora era sufocante, o tal aquecimento global a todo vapor. Dentro do ônibus, uma temperatura agradável, amenizada pelo ar condicionado que funcionava mais ou menos. Quando parava no ponto e abria a porta, vinha aquele ar quente sufocante que passeava em círculos entre os passageiros.

Eu poderia ir para Estocolmo, na Suécia

Nova York, nos Estados Unidos

Berlim, na Alemanha

Damasco, Síria

Beirute, Líbano

Eu poderia ir pra Cidade do México, no México

Istambul, na Turquia

Copenhague, Dinamarca

Moscou, Rússia

A cobradora olhava desconfiada, um pouco curiosa com aquele senhor recitando capitais e países como se estivesse rodando um globo terrestre. Ele levava em uma das mãos, uma sacola reciclável do supermercado Pão de Açúcar, bastante estropiada.

Continuava agarrado na barra de ferro amarela e eu ao lado dele, ouvindo sua aula de geografia, espiando dentro da sua sacola. Dava pra ver apenas alguns panos, não sei se de chão ou de prato. Pareciam sacos comuns, encardidos, enrolados. 

Eu posso ir pra Santiago, no Chile

Havana, Cuba

Cairo, Egito

Manágua, Nicarágua

Caracas, Venezuela.

Eu posso ir pra Tóquio, no Japão

Bruxelas, Bélgica

Lisboa, Portugal

Eu ouvia atentamente, tentando entender até onde iria. Vontade de partir com ele, percorrer ruas de Shinjuku, em Tóquio, beber um mojito na Bodeguita del Medio, em Havana, ver a exposição de Francis Bacon, em Paris, conhecer a nova Tate Modern, em Londres, circular pelas ruínas do centro de Damasco, folhear livros na Livraria Ateneo, em Buenos Aires, almoçar no Museu do Tintin, em Bruxelas, comer um quibe assado, de carneiro, debaixo das parreiras de Beirute, tomar um suco de romã gelado em Istambul, rever as esculturas da Praça Botero, em Bogotá, voltar ao museu da DDR, em Berlim ou saborear umas sardinhas na brasa, em Lisboa.   

Eu posso ir pra Helsinque, na Finlândia

Madri, na Espanha

Eu posso ir pro Canadá

É, pro Canadá

Canadá?

Não resisti e completei:

Ottawa!

O senhor olhou para os meus pés, fixou os olhos no meu All Star e disse apenas uma frase:

Esse sabe das coisas!

Quando o ônibus parou, ele desceu. Estávamos debaixo do viaduto Presidente João Goulart, o Minhocão. Desceu apressado, olhou para trás e percebeu que o seu segundo ônibus do dia estava chegando. Deu sinal e entrou. O luminoso dizia:

857P-10 Paraíso

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

EIS QUE CHEGA A RODA VIVA

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Segunda-feira, dez da noite, por exemplo. Toda semana, na seção Multitela da Folha, anunciam quem será o entrevistado de segunda-feira à noite no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo. Essa semana havia uma expectativa se seria ou não o ex-presidente Lula, direto de Curitiba. Não foi. Quem apareceu por lá, foi a deputada Estadual Janaina Paschoal, aquela que costuma rodar a bandeira do Brasil nos momentos de maior euforia ou delírio. Janaina sentou-se no centro da roda-viva, se achando. Dona de verdades mas, dessa vez, pisando em ovos, com um olho nas eleições para prefeito, no ano que vem. Nesses momentos, é preciso parecer séria. O Roda Viva costuma chamar sempre os representantes dos mesmos órgãos de imprensa. Comandado pela jornalista Daniela Lima, da Folha, ela vai anunciando um a um, no início do programa: Estadão, Folha, Época, Valor Econômico, UOL, O Globo… e, muito raramente algum representante de um blog ou site de notícias. Nunca de esquerda. Os entrevistadores do Roda-Viva se preparam através de apostilas que o programa distribui a eles durante a semana, mais ou menos, a vida e a obra do entrevistado. Cada um vai com meia dúzia de perguntas e, raramente, entram em grandes polêmicas. Quando elas começam, a âncora preocupadíssima com o tempo, com um cronômetro na mão, anuncia: “Temos apenas 3 minutos para duas perguntas!”. O programa, no final, é sempre uma frustração. Perguntas ficaram no ar, respostas não foram convincentes. No caso de Janaina, falou-se de laranjas, de caixa-dois, de brigas no partido, rachadinhas, mas nenhuma deixou a deputada vermelha de vergonha. Pelo contrário. Os entrevistadores nunca reagem com veemência. O entrevistado fala verdades, mentiras, meias verdades e fica por isso mesmo. Janaina chegou a dizer que “todos os partidos fazem isso” (no caso dos laranjas) e nenhum dos entrevistados reagiu: “Mas a senhora não disse que o PSL era o novo, o diferente, aquele que ia acabar com a corrupção?” Parece que os entrevistadores não querem entrar em grandes confrontos, querem aparecer na televisão, com cara de intelectual, e pronto. É o suficiente. [AV]