AQUELE ABRAÇO!

Qualquer tipo de protesto é válido, faz parte da democracia. O jornal O Globo é especialista em publicar, na sua primeira página, protestos pacíficos como, esta semana, o abraço ao museu MAR, que anda ruim das pernas. Já tivemos abraços a lagoas, prédios ameaçados de demolição, uma árvore de jacarandá ameaçada de vir abaixo, já vimos antas na Esplanada dos Ministérios, já vimos velas, lenços brancos, cruzes. VillasNews fica aqui torcendo para que esses protestos não passem de uma foto na primeira página de O Globo. Vamos salvar o MAR!

[fotos Reprodução]

 

TV JUSTIÇA

Nos últimos anos, passar algum tempo diante da tela da GloboNews tem sido sonolento e entediante. O canal por assinatura da Globo opta por fazer transmissões ao vivo de votações que, muitas vezes, ocupam toda a parte da manhã, tem um intervalo para o almoço, e segue por toda a tarde. Chato, chato, chato. Os juizes e promotores, promovidos a stars, aproveitam o tempo para ficar ali no ar por uma, duas, às vezes três horas. A transmissão ao vivo vai engolindo telejornais e programas, uns atrás dos outros. Ficamos com a impressão de que quem assiste, são aqueles aposentados de pijama, deitados no sofá e que, de tempos em tempos, tiram uma boa soneca. Quando acordam, horas depois, o juiz ainda continua falando. Porque, quem interessa mesmo, certamente está conectado na TV Justiça, no original. Como se não bastasse, depois daquele lenga lenga infindável, quando tudo termina, o que vem? Os comentaristas da GloboNews tentando explicar o que eles disseram. Isso quando não levam um especialista. Ontem, era tanta votação que a GloboNews dividiu a tela em dois, mostrando Porto Alegre e Brasilia simultaneamente e ao vivo. Com certeza, isso é ordem superior. Só pode ser, Nenhum editor de programação teria essa ideia transformar o canal em um grande tribunal. 

[foto Reprodução GloboNews]

QUEM OUVE TANTA NOTÍCIA?

A onda do podcast surgiu assim de repente e tomou conta do Brasil. Se você der uma espiada nos sites de notícias dos grandes jornais e revistas no mundo inteiro, vai perceber que essa onda é internacional. Não tem mais publicação que não tenha seu podcast. Um, dois, vários. Podcast sobre tudo: Economia, política, comportamento, humor, religião, esporte, literatura, música, espetáculos, não tem assunto que escape ao podcast. O bom desse mundo da comunicação é mesmo essa variedade de ofertas. O podcast surgiu indo contra a maré e reforçando o cartaz do bom e velho rádio. Há alguns anos, quem perdia o Repórter Esso no rádio, bau bau. Não tinha como ouvir novamente nem mesmo num vale a pena ouvir de novo. O podcast veio pra agendar sua vida, você ouve notícias quando quiser, quando bem entender. No princípio é sempre assim, vem aquela enxurrada na onda da moda, mas, muito em breve o filtro será feito, os melhores ficarão e entrarão para a historia. Hoje, ainda estamos meio perdidos nesse balaio de ofertas. O filtro será feito e a notícia estará sempre no ar. Quem apostou no fim da era do rádio, errou feio. 

AFOGANDO EM NÚMEROS

Quem leu o livro 1984, de George Orwell, deve se lembrar muito bem. Escrito em 1950, a obra previa para os dias que vivemos hoje, um bombardeio de números. Dados, estatísticas, comparações cairiam diariamente em cima de nossas cabeças. Tem sido assim. Os números acima foram todos eles retirados da edição desta segunda-feira, 25 de novembro, do Jornal Nacional. Fomos fotografando o detalhe de cada número que o apresentador William Bonner e a apresentadora Renata Vasconcellos iam despejando sobre os telespectadores: 469 milhões, 652 milhões, 538 milhões, US$7,9 bilhões, 63,7 milhões 1,2 trilhão, 132,2 bilhões, 85 milhões, sendo que nossa lupa não conseguiu fotografar todos. De que adianta todos esses números para um cidadão comum que chegou em casa cansado depois de um dia de trabalho, cujo salário no final do mês ultrapassa pouco mais de 1 mil reais? O que significa 132,2 bilhões para esse brasileiro cansado de guerra que estava ali sentado, exausto, talvez esperando a estreia de Amor de Mãe?

A MORTE ANUNCIADA

Mais uma. A revista mensal de cultura Galileu, publicada pela Editora Globo, anunciou o seu fim. Nascida em 1981 com Globo Ciência, mostrando na capa os insetos robôs, que só agora começam a entrar em ação em grandes tragédias como desabamentos, a revista durante todos esses anos contou capítulos importantes da ciência, da tecnologia, do comportamento. Em 1998, a Globo Ciência mudou de nome, passando a se chamar Galileu. Ampliou o seu horizonte e o número de leitores, dando mais ênfase ao comportamento e aos tempos modernos. Tornou-se a concorrente número 1 da revista Superinteressante, publicada pela Editora Abril, líder do segmento e um grande sucesso editorial. Durante todos esses anos, a Galileu passou por vários projetos gráficos e editoriais, sempre cumprindo muito bem o seu papel. Esta semana, foi anunciada a sua morte, como a de tantas outras revistas nos últimos tempos. A partir de dezembro, as bancas ficam ainda mais tristes, mais vazias e mais pobres de cultura. O lugar onde ficava exposta a Galileu, certamente será preenchido por um caixa de chicletes, um bichinho de pelúcia, um enfeite qualquer ou cartões pré-pagos da Tim, da Claro, da Oi ou da Vivo. Uma pena. 

[foto Reprodução]

PERSPECTIVA

Todo final de ano ela faz tudo sempre igual. Já devem ter percebido a enxurrada de reportagens sobre o trabalho temporário, não é mesmo? O discurso é sempre o mesmo: “Nessa época do ano aumenta o número de empregos, os chamados trabalhos temporários”. Surge na tela um jovem arrumando coisas nas prateleiras e um off dizendo o que está escrito aqui um pouco acima. Aparece o personagem, sempre esperançoso em se efetivar e o fechamento é com aquele que começou como temporário no ano passado e hoje trabalha com carteira assinada. Final de ano é um festival de pautas déjà vu. Teremos a fábrica de panetone e ficaremos sabendo quanto a mais de panetones serão vendidos nessa época de Natal. Teremos reportagens sobre aqueles precavidos, que pra evitar confusão, já estão fazendo suas compras. Uma reportagem sobre a loucura da Rua 25 de Março, em São Paulo, aquele bom velhinho que ganha um extra como Papai-Noel de shopping, dicas de como gastar ou economizar a segunda parcela do décimo-terceiro (com dicas para, primeiramente, pagar as dívidas e depois, guardar um pouco para imprevistos). Teremos uma reportagem sobre aqueles que passam a noite de Natal trabalhando, o movimento nas estradas, aquele que está comprando um presentinho mais simples esse ano porque a vida está apertada, teremos o Show da Virada, a Retrospectiva 2018, uma turma de branco cantando “hoje é um novo tempo/de um novo dia”. Ops, estou estranhando que ainda não anunciaram o show de Roberto Carlos. Será que a ausência do rei nessa época do ano, será a grande novidade na televisão? 

SON SALVADOR

A morte do cartunista Son Salvador, aquele que deu o ar da graça aos leitores do jornal Estado de Minas, durante mais de quatro décadas, é a notícia mais triste da semana. Ele se foi mas sua graça ficou. Obrigado, Son Salvador!

É ENGANAÇÃO SÓ

Outrora, o jornal Folha de S.Paulo já teve uma bela revista de fim de semana. Não que dê para comparar com a The New York Times Magazine, a El País Semanal, a Il Venerdì (do jornal italiano La Repubblica) ou a M (do jornal francês Le Monde). Isso para citar apenas algumas. Mas a São Paulo se esforçava para ser uma revista de serviço, com a cara da maior cidade da América do Sul. 

Desde que o Departamento Comercial, que funcionava nos grandes jornais, em outro andar, passou a funcionar aparentemente com mesas ao lado dos jornalistas, a coisa mudou. A São Paulo, da Folha, por exemplo, começou a publicar números temáticos, descaradamente vinculados ao Departamento Comercial. Especial Páscoa, Especial Natal, Especial Dia da Mães, Especial Dia dos Pais, Especial Dia das Crianças, Especial Reformas, Especial Bares e Restaurantes, Especial Casa foram alguns números publicados em sua fase terminal. 

Esses números, quando saiam, fugiam completamente do projeto original de revista de fim de semana da cidade. Eram praticamente preenchidos por publicidades afins, colhidas pelo Departamento Comercial. Até que a revista foi minguando e saindo à francesa, sem dar satisfação ao leitor. Tipo “não vamos dar explicações a eles, quem sabe os leitores nem sintam o seu desaparecimento?”

E assim foi. Não somente a São Paulo, mas também a Serafina, mensal, foi sumindo, sumindo e sumiu.

Mas eis que de repente, o leitor neste domingo (24), foi brindado com uma São Paulo, teoricamente “a revista da Folha”. Sim, está escrito na capa. “É luxo só” é a manchete   de uma revista/catálogo totalmente desfigurada, nada a ver com uma revista de serviço da cidade. E chegou assim, como disse acima, de repente, e vai sumir da mesma maneira. É o tal “Especial Fim de Ano”, que nem número tem.

Uma pena. Com esses números periódicos e irregulares, a Folha de S.Paulo não está cativando ou ganhando leitores. Apenas dinheiro, porque, jornalisticamente, a revista não vale praticamente nada. Só nos resta agora esperar o número “Especial Férias”. Com certeza, ele vem ai. 

 

BONDINHO

[coleção Alberto Villas]
A revista Bondinho nasceu em outubro de 1970, como uma espécie de guia quinzenal da cidade de São Paulo, patrocinada pela rede de supermercados Pão de Açúcar, em São Paulo. Sempre muito criativa, a revista, a cada número, publicava em sua capa o que mais estava em voga na cidade. Na edição de estréia, por exemplo, no auge da onda do tobogã, a capa da Bondinho era: A cidade está escorregando. E assim foi durante muito: A cidade está amando (no dia dos namorados), a cidade está comendo e bebendo, com um grego (quando começaram a surgir os restaurantes gregos na cidade), a cidade está aniversariando, a cidade está em férias, a cidade está indo aos museus, a cidade está ficando hipppie. Era distribuída de graça nos supermercados da rede e muito disputada. Em 1972, já bastante conhecida, a Bondinho, publicada pela Editora Arte & Comunicação, partiu pra carreira solo. Bem mais encorpada e abrangente, surpreendeu os leitores nas bancas de jornais de várias cidades brasileiras. Passou a ser vendida e foi, aos poucos virando uma leitura obrigatória entre os jovens, a turma cult, pessoas descoladas. Com entrevistas que chegavam a ter 20 páginas, passaram por ali Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Jorge Mautner, Lany Godinho, Gilberto Gil, que inclusive, neste número, trouxe encartado um disco (compacto duplo) de vinil, com quatro canções inéditas. A Editora Arte. & Comunicação foi só crescendo, sempre pilotada pelo psiquiatra e escritor Roberto Freire, autor de Cleo e Daniel, e uma equipe de craques jamais vista na imprensa brasileira, entre eles Mylton Severiano, Narciso Kalili e Sergio de Souza. Uma equipe tipo Pelé, Rivelino e Tostão. Do forno da editora saíram as revistas Grilo, Jornalivro e a antológica Revista de Fotografia. Bondinho, em maio de 1972 morreu, como inúmeras revistas underground morreram. Suas reportagens e sua apresentação gráfica, até hoje são veneradas. A época do Bondinho, apesar de vivermos em plena ditadura, entrou para a história do Jornalismo brasileiro. 

 

FAMOSOS

Todos sabem que a revista Quem, da Editora Globo, atualmente apenas on line, é uma revista de famosos, mesmo que sejam “famosos quem?”. Mas é curioso ela noticias que “Famosos lamentam morte de Fábio Barreto”. Seria como o site da revista Exame noticiar que “Economistas lamentam a morte de Fábio Barreto” ou o site da Globo Rural noticiar que “Agricultores lamentam a morte de Fábio Barreto”. Na verdade, quem lamentou a morte de Fábio Barreto, diretor de “O Quatrilho” e “Lula, o Filho do Brasil”, foram todos nós.

[foto Reprodução/Quem]

JORNALISMO NAS COXAS

O acidente doméstico sofrido pelo apresentador Gugu Liberato, ontem em Orlando, nos Estados Unidos, mostrou claramente como é feito o jornalismo às pressas e nas coxas. A noticia circulava nos programas de fofoca à tarde na televisão e nas redes sociais numa velocidade estonteante. Pegamos apenas dois exemplos, um do site da revista Caras, e outro do jornal O Dia, do Rio, para mostrar como é feito tal jornalismo. Com um título de duas linhas e um texto introdutório de seis, veja o primeiro festival de barbaridades.

Na Caras, o titulo diz que ele está em “estado grave”, mas, na verdade, quem diz não é o o site e sim um colunista. É o tal do “tirar da reta”. Se ele está bem, em estado grave ou morto, quem está falando (acertando ou errando) é o colunista, e não nosso site. 

Na legenda, já não é mais “está”, mas “estariam estado grave”. E logo na primeira linha do texto, o redator, ou redatora, escreveu que ele “passou por um susto”. Como assim, foi só um susto e ele está em “estado grave”?

Mais abaixo, o texto diz que o apresentador “estava no local”. Que local? Orlando? O local do acidente? Que local?

Mas, pior mesmo foi a jornalista Fábia Oliveira, do jornal carioca O Dia, que deve ter pensado: “Caiu do telhado, de uma altura de 4 metros, bateu a cabeça numa quina… ah, só pode ter morrido”. E anunciou sua morte no título, mas ressaltando, na primeira linha, que ele “teria tido morte cerebral”.

[fotos Reprodução site Caras/jornal O Dia]