NOVE HORAS DA MANHÃ

Da janela do ônibus Ipiranga, vi apenas os dois pés. O corpo, incluso cabeça, estava coberto por um tecido grosso que, assim do alto e de longe, mais parecia um papelão, mas era tecido. Aparecia apenas os pés, sujos, maltratados, calejados. Estava ali exposto no chão, debaixo do Viaduto Presidente João Goulart, aquele que foi deposto para evitar o comunismo, para criar um país novo, que iria um dia pra frente, Brasil. As pessoas que passam desviam do morador de rua ali deitado, como desviam de uma pedra. Nem olham. O ônibus está parado esperando o sinal abrir e ninguém olha para o homem dos pés. Qual é o seu nome? O número do seu CPF? O que foi na vida? O que é hoje? Aflito, espero o sinal abrir e chegar em casa a tempo de ver o telejornal que vai falar de bilhões que o governo vai economizar em dez anos. Vai dar a cotação do dólar, do temporal que desabou no Rio hoje, ontem em Brasília. Mas não vai falar dele, um homem que se resume em dois pés sujos ali expostos a visitação pública. E ninguém vê.

[foto Alberto Villas]

Oplakivanje Krista, Andrea Mantegna (detalhe)

[cerca de 1475]

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