BELEZA PURA

Nos últimos tempos, o jornal Folha de S.Paulo cortou as revistas São Paulo, Serafina, cortou os cadernos Sinapse, Folhateen, Ciência, Equilíbrio, Folhinha, o suplemento semanal do The New York Times e outros que me falha a memória. Ao invés de investir, crescer, cativar e ganhar leitores, o jornal faz exatamente o contrário, cavando o abismo com os seus próprios pés, plagiando Agenor de Oliveira, o Cartola.

Mas justiça seja feita. Mesmo sem crescer em tamanho, a Ilustrada tem brilhado nos últimos tempos. Dizem que em Jornalismo, nunca se deve mexer em logotipo. A Ilustrada mexe e surpreende a cada dia o leitor. Ilustrada tem sido, todas as manhãs, a grande surpresa do jornal. Com uma edição gráfica da capa, que varia a cada dia, virou uma pequena atração dentro do jornal. Trabalhar com criatividade é fundamental para um bom jornal, um bom telejornal, um bom podcast.

Sim, a Folha precisa crescer a Ilustrada em conteúdo. Mas aqui, volto ao assunto: Justiça seja feita. Geralmente os artigos de capa estão bem escritos, atrativos, bem costurados e bem variados. Seria ótimo se a ideia de surpreender o leitor como tem feito com a Ilustrada, se espalhasse pelo jornal inteiro, que é burocrático no formato. Os tempos são de mudanças.

 

 

 

 

TIMIDEZ

Desde aquela inesquecível madrugada em Riad, quando o presidente Jair Bolsonaro perdeu o sono e foi pra frente de uma câmera soltar os cachorros na TV Globo, chamando-a de canalha e de patifes seus responsáveis (na opinião dele, irresponsáveis), a TV Globo encolheu, quase se escondeu debaixo da cama.

Com a ameaça do presidente de tirar a concessão da emissora, com aquela gritaria na calada da noite, a Globo se assustou. Não foi o comunicado interno dando parabéns aos envolvidos na reportagem sobre o porteiro do famoso Vivenda da Barra, que aliviou a situação. A perda de publicidade não é coisa pra se brincar. Coincidência ou não, depois daquele gráfico publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, mostrando que o governo Federal encolheu as verbas publicitárias da outrora vênus platinada, o Jornal Nacional anda pisando em ovos.

Na edição desta quarta-feira, 20, por exemplo, ela mostrou uma reportagem dizendo que o porteiro da tal Vivenda, onde vive o presidente, um de seus filhos e vários elementos, alguns presos, outros  acusados de crimes ou foragidos, se enganou em tudo: o número da casa, o número do telefone, a voz de quem atendeu o telefone, a placa do carro. Que porteiro é esse que sofre de amnésia? Ninguém ficou sabendo. 

No mesmo JN, depois do presidente dizer sua bobagem do dia – “queimada é cultural e não vai acabar” – e que a eterna candidata a presidente Marina Silva mentiu, o telejornal capou a resposta da ex-ministra do meio ambiente, falando poucas e boas do Bozo. O Jornal Nacional não quer contrariar o presidente. Pelo menos até que ele caia.  

PAINEL DOS LEITORES

Dizem que quem escreve cartas para jornais e revistas tem algum distúrbio. Muitos leitores sequer passam os olhos nas cartas dos leitores. A edição desta segunda-feira do jornal Folha de S.Paulo publicou uma carta que registramos aqui. Curta e grossa, saiu do ritmo de elogios & criticas ao jornal. Vale a pena das uma espiada no Painel dos Leitores todos os dias. 

FEIURA PURA

Caminhando para os cem anos, a revista semanal norte-americana The New Yorker é um colírio para os olhos e fósforo para o cérebro. Suas capas celas, revezando os maiores ilustradores do mundo, são uma marca registrada. Puro bom gosto, inteligência pura. A cada semana, uma surpresa. Fundada em 1925, foi rara a capa da New Yorker que deixava dúvidas quanto ao bom gosto. Mas essa semana, por incrível que pareça, a charmosa New Yorker chegou às bancas com uma capa feia, talvez a mais feia de sua longa história. A edição especial Food errou a mão, saiu completamente do padrão New Yorker. Será que todos acharam a capa da New Yorker, o desenho de Wayne Thiebaud, medonho?

GOLPE

Já perceberam como a televisão brasileira morre de medo da palavra golpe? Desde aquele de 2016, que ela nunca admitiu que foi. A Bolívia passou recentemente por um golpe e a televisão evita falar. Ela costura um texto daqui, outro dali e as pessoas ficam sem entender o que realmente passa naquele país. De repente, o presidente Evo Morales foi obrigado a deixar o poder, pressões de todos os lados, inclusive militar. Refugiou-se no México porque estava correndo risco em seu próprio país. Não se fazem mais golpes como antigamente. Agora é sempre à moda Temer, aparentemente tudo dentro da lei. A Bolívia tem uma presidente que se autoproclamou presidenta da República. Sem pulso, sem programa de governo, ela vai se atrapalhando no poder. Enquanto as populações indígenas, favoráveis ao governo deposto, faz barricadas, faz o que pode para resistir. E a televisão não mostra claramente o que se passa por lá. Falta diesel, falta pão, falta leite, falta carne. Mas, para os telejornais, a Bolívia está livre de um governo de esquerda. Enquanto as coisas não se acertam, vamos empurrando a notícia e os telespectadores com a barriga. 

UMA PAUTA

A pauta é fundamental para qualquer revista, qualquer jornal, qualquer telejornal. A produção de uma pauta é a alma de qualquer meio de comunicação. Nos últimos tempos – muitos mesmo – o Brasil anda carente de pauta, com o noticiário engolido diariamente pelo factual. A notícia sempre engole a boa pauta, isso é fato. 

Pautas por aqui são aquelas que todos nós conhecemos bem, através dos anos: O aumento de número de vagas temporárias nessa época do ano (sempre com um personagem que começou como temporário e acabou sendo contratado), o trânsito nas estradas na época de feriado, o panetone que está chegando, as flores mais caras no Finados, o bacalhau com o preço salgado na Sexta-Feira Santa, aqueles que deixam para comprar o presente na última hora, o brinquedo caro, “mas fazer o quê, né?”, as promessas pro ano novo, o primeiro bebê no ano. Poderia fazer uma lista de mil pautas aqui. Fiquemos só nessas. 

A França ganhou uma nova revista semanal de informação há algumas semanas, a La Croix Hebdo, ligada ao jornal católico La Croix. Em seu sétimo número, que chegou às bancas na sexta-feira passada, uma boa ideia de pauta na capa. Como aqui na América Latina, o embate entre policiais e manifestantes nas ruas de Paris é constante e violento. La Croix passou vários dias junto a policiais, seguindo seus passos, para produzir uma matéria mostrando como é a vida daquele que reprime o povo nas ruas. Uma pauta jamais vista aqui. 

MAMA ÁFRICA

A imprensa brasileira nunca deu muita bola pra África. Notícias do continente, você vê de tempos em tempos quando há um golpe militar, um surto de Ebola, um avião que cai. Nós, brasileiros, sabemos pouco sobre os africanos. Há quanto tempo você não lê uma notícia sobre o Burundi, Burkina Faso, Zâmbia ou Zaire? Nem mesmo sobre Angola ou Moçambique, onde reina o português, temos notícia. Essa semana, o jornal francês Le Monde anunciou uma novidade em suas plataformas digitais. 

O Monde designou nada mais, nada menos que 35 jornalistas para a cobertura permanente do continente africano. Trinta e cinco! Todos eles ficarão por conta de fornecer conteúdo jornalístico para o jornal, uma cobertura jamais vista na imprensa mundial. Política, economia, esporte, meio-ambiente, cultura, religião, as editorias são muitas e abrangentes. O Le Monde Afrique nasce, numa época em que, no Brasil e em vários países, os jornais minguam, os leitores fogem, as luzes se apagam. O Le Monde, remando contra a maré,  dá uma lição. Lógico que o interesse francês sobre o continente africano é imenso. São milhares de imigrantes e filhos de imigrantes que moram no país. Inúmeros países que outrora foram colônias. A música africana em Paris merece prateleiras especiais em todas as lojas de discos e plataformas musicais. 

Enquanto por aqui ficamos apenas com noticias curtas produzidas a partir do material de agências de informação, os franceses entram em campo. Sim, talvez falemos da África no 20 de novembro, dia da consciência negra. Depois, só quando houver um golpe militar, um surto de Ebola, uma queda de avião. E olhe lá!

CARACAS!

Na página do Jornal Hoje, da Rede Globo, um título deveras interessante. Curto e grosso, o redator escreveu: “Manifestação em Caracas na Venezuela”. Aguarde novos títulos no site: “Manifestação em Buenos Aires na Argentina”, “Manifestação em Paris na França”, “Manifestação em Tóquio no Japão”. Assim mesmo, sem vírgula, sem nada.

HONTEM

O que apareceu na tela do Jornal Hoje (Rede Globo) de quinta-feira passada, nos fez lembrar uma dessas tiradas geniais do multimídia Millôr Fernandes, morto em 2012: “Ontem, ontem tinha agá, hoje não tem. Hoje, ontem tinha agá e hoje, como ontem, também tem”,

O QUE PODE ESSA LÍNGUA?

Pode parecer maldade rir do erro dos outros. Mas a seção Erramos do jornal Folha de S.Paulo, não passa desapercebida da lupa do VILLASNEWS. Tem dias que é informativa, realmente um erro a se corrigir. Mas tem dias que mais parece uma seção de humor. “O jogo não foi em Goiânia e sim em Tóquio”, “Fulano é homem e não mulher, conforme foi publicado”, por exemplo. Quem será que no dia 5 de novembro alguém percebeu que “Revolução de Outubro” grafada com sinais do alfabeto cirílico, estava errada?

O PROCESSO DE PASTEURIZAÇÃO

A ideia de comemorar os 50 anos do Jornal Nacional, o telejornal mais assistido do país, convocando apresentadores das inúmeras afiliadas da TV Globo, aos sábados, para apresentar o telefonar, foi boa. Mudou o sotaque e, a cada fim de semana, os telespectadores mais fiéis percebiam que tinha uma novidade no ar, uma surpresa ver os dois apresentadores sentados na bancada, todos eles bem seguros, não resta a menor dúvida. Inventaram uma fórmula para que isso ocorresse sem atropelos. William Bonner e Renata Vasconcelos, se colocam de pé no cenário e chama a dupla, que sai por detrás do cenário e se cumprimentam, como se não se vissem há dias. Os dois apresentadores são convidados a sentar nas cadeiras da bancada, sem antes Bonner fazer uma pequena brincadeira, alertando os dois de que o cenário é móvel, é preciso tomar cuidado. Sentados, cada um deles contam de onde vieram e como é sua rotina de trabalho. A imagem que entra é sempre a mesma e o texto quase que igual. Eles chegam na TV bm cedo, mas antes leram os jornais para se integrar de tudo que se passa. Aparecem andando no corredor da afiliada, entram na redação, se dirigem a algum editor, olha a tela do computador. A imagem muda para o apresentador sentado em sua mesa, depois maquiando, entrando no estúdio do jornal local e fecha-se com imagens dele apresentando o telejornal ALTV, PETV, MTTV, MGTV e por ai vai. Chega a vez do segundo apresentador da noite se apresentar. Ele se apresenta quase sempre da mesma maneira. Texto e imagens. Voltam para os dois ao lado do Bonner que pergunta como foi que receberam a notícia de que iriam apresentar o JN. A surpresa deles só varia de onde estavam no momento. Mas a surpresa é sempre a mesma. A princípio não acreditaram, depois ficaram felizes, emocionados, felizes da vida. Nesse momento, entram duas matérias, uma de cada estado do apresentador-convidado. As imagens e os textos variam porque o Amazonas é diferente do Rio Grande do Sul, mas o formato é o mesmo. Voltam pros apresentadores, Bonner brinca que a moqueca deve ser mesmo deliciosa ou que as cachoeiras devem ser lindas mesmo. Chega o momento da despedida, Bonner pede a cada um que dê o seu “boa noite”. Bonner dá boa noite bom fim de semana, Renata faz o mesmo e os convidados dizem o seu “boa noite e até amanhã”. Assim tem sido, religiosamente, toda sexta-feira, quando são apresentados. A Globo quando encontra um formato, ela não ousa mudar nem uma vírgula. Deu certo, vai ser assim com todos, absolutamente igual. Uma pena porque os apresentadores são fisicamente tão diferentes, os sotaques são tão diferentes, que cada apresentação poderia também ser diferente. Mas deixa parecer que a direção do JN não quer saber de mudar a fórmula que inventou. No sábado passado, o apresentador-convidado, Felipe Toledo, de Alagoas, quebrou o protocolo na hora do boa noite, recitando versos do seu conterrâneo, Djavan: “

NOVE HORAS DA MANHÃ

Da janela do ônibus Ipiranga, vi apenas os dois pés. O corpo, incluso cabeça, estava coberto por um tecido grosso que, assim do alto e de longe, mais parecia um papelão, mas era tecido. Aparecia apenas os pés, sujos, maltratados, calejados. Estava ali exposto no chão, debaixo do Viaduto Presidente João Goulart, aquele que foi deposto para evitar o comunismo, para criar um país novo, que iria um dia pra frente, Brasil. As pessoas que passam desviam do morador de rua ali deitado, como desviam de uma pedra. Nem olham. O ônibus está parado esperando o sinal abrir e ninguém olha para o homem dos pés. Qual é o seu nome? O número do seu CPF? O que foi na vida? O que é hoje? Aflito, espero o sinal abrir e chegar em casa a tempo de ver o telejornal que vai falar de bilhões que o governo vai economizar em dez anos. Vai dar a cotação do dólar, do temporal que desabou no Rio hoje, ontem em Brasília. Mas não vai falar dele, um homem que se resume em dois pés sujos ali expostos a visitação pública. E ninguém vê.

[foto Alberto Villas]

Oplakivanje Krista, Andrea Mantegna (detalhe)

[cerca de 1475]