MUITO ESTRANHO

Quinze dias depois da tragédia na favela de Paraisópolis, em São Paulo, onde morreram nove jovens que participavam de um baile funk, eis que surge uma gravação, na minha opinião, no mínimo, suspeita. A gravação mostra a polícia agindo cautelosamente, como se fosse um grupo de frades. Não estou aqui acusando ninguém, apenas questionando porque essa fita só apareceu agora, duas semanas depois do massacre? Ora, peça fundamental da investigação, ela deveria ter sido requisitada imediatamente após a tragédia. E, seguramente surgiria porque não incrimina os policiais, aqueles que apareceram em algumas imagens batendo de cassetete na juventude, jogando bombas de efeito moral e encurralando-os num beco sem saída. O diálogo que aparece na gravação mais parece que estava ocorrendo um jogo de xadrez ali, um jogo de damas ou uma aula de yoga. Nunca vi nada igual. Tudo nos conformes, como se costuma dizer. E, nos telejornais, logo após a exibição do áudio-modelo, tipo curso de boas maneiras, surge na tela o governador de São Paulo dizendo que eles são verdadeiros e que provam que a “polícia agiu de maneira correta”, conforme ele tinha tido desde o início de tudo, quando os corpos dos nove jovens ainda estavam quentes. E o assunto deu-se por encerrado. Repito: Não estou aqui acusando irresponsavelmente a polícia de ter fabricado tal áudio, dizendo que ele é fake. Mas pergunto, nesse blog focado no Jornalismo, por que não apareceu um repórter investigativo sequer para checar a veracidade do diálogo fofo entre os policiais, inclusive quando um deles pergunta quantos desacordados estão ali e o outro responde imediatamente: “Nove!”. No meio daquela confusão, daquele massacre, em plena operação, fica a impressão de que os nove corpos já estavam ali enfileirados, um ao lado do outro, contadinhos. Alguma perícia foi feita nessa fita? Porque ela só apareceu quinze dias depois? Porque ficou guardada esses dias todos? Deixo as perguntas no ar, que nenhum repórter fez. A fita foi divulgada e pronto, não se tocou mais no assunto. (Alberto Villas)

DEZEMBRO 2020

De uns tempos pra cá, fala-se muito no fim do jornal de papel. Neste final de ano, um ano tenebroso, voltamos a perguntar: Ainda teremos jornal de papel em dezembro de 2020? É uma incógnita. Do jeito que eles vão emagrecendo, do jeito que eles vão esvaziando as redações, eliminando suplementos, fica difícil. Difícil imaginar que vão chegar ao final do ano que vem, firmes e forte. Podem até chegar, aos frangalhos, se não souberem sacudir, levantar a poeira e dar a volta por cima. Por outro lado, esta semana, o jornal francês Le Monde completou 75 anos de vida e anunciou a seus leitores que a partir de primeiro de janeiro estará na nova sede, numa área nobre de Paris. O Le Monde, apesar de todo progresso online, cresce também no papel e em conteúdo. Parece que querem entrar nesse novo mundo mantendo uma tradição antiga que é ler jornal em papel. Não vejo sinais de preguiça, desânimo ou medo nas páginas do Monde. E aqui? O que vamos fazer, como vamos reagir? Ninguém sabe. Só os 365 dias de 2020 dirão. 

OITO OU OITENTA

A cultura é tratada nos produtos Globo como se fosse oito ou oitenta. Quem bateu os olhos na edição desta terça-feira (17) do jornal O Globo deve ter se surpreendido com o espaço dado pelo jornal carioca à recuperação do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, depois da sua destruição por um incêndio, em 2015. Além da chamada na primeira página, a reinauguração do museu, programada para junho do ano que vem, ganhou a capa do Segundo Caderno. Ao ler, você descobre que tem a participação da Fundação Roberto Marinho na jogada. Até aí, tudo bem. Sabemos que a organização tem papel fundamental em recuperações de monumentos históricos pelo país afora. O que chamamos aqui é o tratamento dado à cultura em nosso país pelas organizações Globo.. Seguramente, a reinauguração em junho de 2020 vai ganhar uma cobertura exaustiva dos produtos Globo. Teremos notícias no jornal local, em todos os telejornais da casa, além dos programas da Annamaria Braga, da Fátima Bernardes, do Pedro Bial, do Serginho Groismann. Na Globo, a Cultura funciona assim: Oitenta para eventos da casa, oito para o resto. Quando não é zero para os outros. No jargão jornalístico, chamamos isso de “matéria rec”, traduzindo, “matéria recomendada, obrigatória, da casa”. Não deveria ser assim. Eventos importantes em nosso país, muitas vezes passam em branco nos telejornais, jornais e programas da casa. Simplesmente porque não são matérias “rec”.

[foto Reprodução]

DUELO

Não é de hoje que político briga com jornal, que jornal briga com político. O embate mais recente, estamos acompanhando pelas páginas do jornal O Globo e pelo que sai da boca do prefeito do Rio, Marcelo Crivella. É O Globo implicando com o prefeito e o prefeito implicando com O Globo. Um  assunto diário. Ai vira aquela coisa chata pra quem assina, pra quem ainda vai à banca comprar o jornal. Nos últimos tempos, não passamos um dia sequer sem uma denúncia contra a prefeitura do Rio na primeira página do jornal dos Marinhos. Em todas as áreas. Saúde, educação, saneamento básico, segurança, cultura, nada escapa. Crivella, revoltado com o que chama de perseguição, resolveu barrar a Globo como um todo em suas manifestações. Jornalistas de O Globo, TV Globo, G1, GloboNews, simplesmente andam sendo barrados em qualquer evento da Prefeitura. Mesmo aqueles em que o prefeito se sai bem, faz acordos, inaugura obras. Crivella achou que, com isso, o carioca simplesmente ficaria sem saber como anda a prefeitura, pro bem ou pro mal. De nada adiantou. A popularidade do prefeito despencou, é a pior possível e até o instituto DataFolha entrou na briga pra saber o que o carioca está achando disso tudo. Resultado: 76% da população está contra o prefeito. E agora, a Justiça também entrou no rolo e considerou ilegal a atitude do prefeito birrento. Enquanto isso, uma outra briga é travada em outro ringue: Bolsonaro X Folha. Mas essa é outra história. E quem sai perdendo nesse tipo de briga boba é o pobre do leitor.

CARREIRA SOLO

Quando a Editora Abril lançou a Veja São Paulo (logo apelidada de Vejinha) revista Veja estava em muito boa forma. Na verdade, no Brasil, a ideia original de ter uma revista da cidade vendida junto com a nave mãe, é da Isto É, que lançou antes da Veja São Paulo, a Isto É Sampa, de curta duração. A Vejinha foi crescendo, crescendo e, de repente, ficou maior do que a revista principal. O sucesso foi tanto que foram surgindo outros filhotes: Veja Rio, Veja Brasilia, Veja BH, Veja Nordeste, Veja Litoral. Muitas vezes a direção pensou em uma carreira solo pra Vejinha, mas preocupada em desfalcar a principal, espantando assinantes e leitores de banca, a ideia foi esquecida. Com a crise da imprensa escrita, de papel, sobrou apenas a Veja São Paulo, hoje magrinha, bem menor que a Veja. As outras foram desaparecendo uma a uma. A partir dessa semana, os novos donos da Vejona resolveram fazer uma experiência. A Vejinha, que continua no pacote da Vejona, agora pode ser vendida separadamente, ao preço de 9.90 reais. Não é fácil entender o que passa na cabeça da direção. O objetivo é vender a revista da cidade para aqueles que não suportam mais a Vejona? Uma experiência que, na verdade, eles não têm nada a perder. Se vender bem, se não vender amém. Aguardemos as próximas semanas.

[foto Reprodução]

NEXO

Fazer títulos é uma arte. Cativar o leitor para a leitura da matéria é a pedra fundamental para um bom título. Um exemplo. Vi, um dia, o título “Cuidado, tinta fresca!”. Comecei a ler a matéria e vi que tratava-se de falsificação de quadros de gênios dia pintura. Talvez tenha sido este um dos melhores que vi. Já fiz milhares de títulos por ai. O que nunca me esqueço foi um que lavrei na certeza de não passar pelo crivo do editor-chefe de Internacional do Estadão, onde eu cuidava da coluna Pelo Mundo, um apanhado de notinhas que não tínhamos onde enfiar. Chegou pelo telex a foto de três carabineiros encurralando uma onça num parque da capital italiana. Ela havia fugido de um circo e estava bem assustada, mostrando os dentes e as garras. O título que dei foi “Roma de Felino”. Passou! Saiu impresso no Estadão e eu o guardo como um troféu de início de carreira. Tudo isso para falar do título que saiu na edição de ontem no suplemento de turismo do jornal O Globo. A foto de uma performance de pinguins amarelos em fila na mas famosa ponte da capital Tcheca caiu nas mãos do editor e ele, para aproveitar a curiosa e inusitada foto, titulou: “Assim caminha Praga”. A princípio, achei que era delírio do tituleiro para não desperdiçar a foto, que é boa. Mas, ao ler a matéria, percebi que ela faz sentido, já que o assunto é a invasão da arte contemporânea numa das cidades mais tradicionais e glamurosas do mundo. Rendi-me ao título e guardei na minha coleção. Assim caminham as boas ideias…

TRÊS TRISTES PITACOS

O primeiro é ler com perplexidade que na pesquisa realizada pelo site de notícias UOL para escolher o “Melhor de 2019” está, entre os quatro concorrentes, o programa “Silvio Santos e o concurso Miss Infantil, que foi ao ar no inacreditável SBT. Deveria estar concorrendo ao prêmio “Pior de 2019”.

Matéria sobre as calçadas de São Paulo exibida pela GloboNews mostrou tudo. Menos aquela palhaçada do então prefeito da cidade, João Doria que, no segundo dia de mandato, vestiu-se de pedreiro, pegou uma pá de cimento e consertou 1 metro quadrado de calçada, prometendo consertar todas até o final do mandato. Ficou apenas dois anos para se candidatar a governador e não se falou mais nisso. A TV anda sem memória.

A cada dia vamos assistindo a TV Globo se desmilinguido . A lista de demitidos já é enorme e vai continuar aumentando. Ontem foi a vez de Lair Rennó, na emissora há vinte anos e, desde 2012, parceiro de Fátima Bernardes no seu Encontro. Se a desculpa de outros demitidos da lista é a idade, como explicar a demissão de Rennó? Todos sabem que o problema não é a idade, é o salário. A fila de pessoas dispostas a trabalhar por um salário mínimo na Globo é grande. E anda.