BURRICE

Em 2013, a revista Veja chegou às bancas com uma pergunta na capa: “O PT deixou o Brasil mais burro?” A revista dizia que “o obscurantismo oficial condena o inglês, quer tirar a liberdade das universidades e mandar na cultura”. Vivíamos em plena era da inclusão social, da liberdade nas universidades, do acesso dos menos favorecidos às faculdades. Com isso, apenas confirmamos aquele velho ditado; “Veja mente”. Ai veio o golpe em 2016, veio Michel Temer presidente, ai chegamos ao fundo do poço com um governo de extrema-direita. E a revista IstoÉ, conhecida também por IstoEra ou QuantoÉ, afirmar em sua capa desta semana que estamos vivendo “a vez da ignorância”. Tanto Veja quanto Isto é foram duas inimigas ferozes do governo do Partido dos Trabalhadores. Hoje, vivem sem o PT no poder, mas vivem uma agonia.  

O MEDO

Você já deve ter percebido que a grande imprensa, principalmente a televisão, morre de medo de algumas palavras. Golpe, por exemplo. Alguns, juram de pés juntos que não houve um por aqui em 2016. Acreditam piamente que tudo foi feito dentro da lei. Nem golpe lá fora, no estrangeiro, essa imprensa falava. Medo da associação ao nosso golpe que derrubou uma presidenta eleita democraticamente. Os nossos telejornais, durante meses e meses falou em reforma da Previdência. Colocou no ar cem por cento de sonoras de especialistas a favor. Nunca ouviu o povo. Era só gente falando que se a reforma não passasse, o país quebrava. Quando vieram as manifestações lá fora, principalmente na Argentina e no Chile, a tal reforma da Previdência foi esquecida. Todos sabem que o povo, milhares de pessoas, foram às ruas pra protestar contra a reforma, exatamente a mesma que vai ser implantada por aqui. Mas os telejornais pisavam em ovos, procurando palavras que não faziam lembrar a nossa reforma. Os textos diziam que “foram às ruas para protestar contra o governo” (nunca diziam que tratava-se de um governo de direita como o nosso), “manifestantes tomaram a avenida” (sem dizer o motivo) ou “houve tumulto durante os protestos…” (e aí mostravam cenas de violência, como se os manifestantes fossem um bando de vândalos”. Agora a coisa mudou. A reforma do governo de ultra-direita do presidente Bolsonaro foi aprovada e então fala-se em “protestos contra a reforma da previdência”, explicitamente. Agora pode. Fala-se claramente, na televisão, nos jornais, nos sites de noticia. Protestos contra a reforma da Previdência lá fora pode. 

SIM, PROFISSÃO REPÓRTER

Taí um programa que faz jus ao nome. O Profissão Repórter, comandado por Caco Barcellos, que foi ao ar na noite desta quarta-feira, dia 4, veio para provar isso. Caco, com sua equipe, começou a trabalhar para fechar o programa, quando Paraisópolis ainda estava em estado de choque, logo após o massacre promovido pela Policia Militar do governador João Doria. Sem aquele acabamento pasteurizado na tentativa de ser glamuroso do Globo Repórter, com passagens e mais passagens dos repórteres, o jornalismo mostrado pelo Profissão Repórter mostrou-se quase bruto, quase cru. Sim, muita gente chorando, uma marca registrada da TV Globo. Alguém ainda se lembra do filme Cinema Falado, de Caetano Veloso, quando um filósofo diz: “Toda noite tem alguém chorando na tela da TV Globo?” Mas o silêncio dos repórteres na hora da dor dos parentes e amigos, cumpriu perfeitamente o seu papel. A equipe do Profissão Repórter mostrou vídeos conhecidos, mas foi muito além. Entrou nas casas das vítimas, mostrou como os bailes funks são organizados, andou pelas ruas e ruelas de Paraisópolis com as jovens líderes da comunidade, disse quem era quem daqueles nove jovens assassinados. Um programa e tanto, o melhor jornalístico da TV brasileira sem sombra de dúvida. Caco é um craque e seus repórteres estão aprendendo como se faz para o bem do futuro do Jornalismo. Patético, o governador de São Paulo apareceu no programa dando uma entrevista coletiva elogiando a polícia e dizendo que as ações contra os bailes funks vão continuar. Na cabeça dele, São Paulo já virou uma Oslo. Na nossa, trata-se de uma besta quadrada.

[foto Reprodução TV Globo]

OPS…

Fazer um bom título, uma boa manchete principal, uma foto-legenda, é uma arte. Talvez muitos redatores optam pela simplicidade, evitando inventar moda, para seguir em frente, sem grandes percalços. Existem títulos inspirados, como aquele sobre a falsificação de obras de arte dos grandes mestres da pintura: “Cuidado, tinta fresca”. Mas existem também aqueles títulos que pecam pela busca de inspiração e a opção por ela, mesmo que não faça muito sentido. É o caso do título acima, do portal Terra. O redator foi buscar numa velha canção de Roberto e Erasmo, sua inspiração para fazer um título sobre a estréia de patinetes Uber nas ruas de Santos, em São Paulo. Ficou sem sentido e sem graça. “Uber passa a oferecer patinetes elétricos nas curvas de Santos”. Como assim? Só é possível usar as patinetes nas curvas? E nas retas? 

A GAROTA DO TEMPO

Foi uma surpresa ver, pela primeira vez, a atuação da jornalista Daniela Lima na televisão. Comandando o programa Roda Viva, apresentado pela TV Cultura de São Paulo, Daniela era só segurança. Tínhamos a impressão de que aquele era seu trabalho há muitos anos. E não era. Sem vacilar, sem mostrar nervosismo, ela arrasava na telinha. Aos poucos, infelizmente, foi tornando-se escrava do tempo. Conduzindo com a mesma firmeza de sempre, sua preocupação maior parecia ser entregar o programa dentro do tempo, sem estouros, como se diz no jargão televisivo. Nos últimos programas, a impressão que temos é de que Daniela está mais preocupada com o tempo do que com o conteúdo do Roda Viva. Passa grande parte do programa avisando ao convidado e aos entrevistadores, que o tempo é curto: “Você tem um minuto para fazer a pergunta”, “por favor, responda rapidamente porque temos apenas dois minutos”, “queria pedir aos entrevistadores que façam perguntas concisas porque nosso tempo está acabando”, “faça a pergunta depois do intervalo porque nosso tempo esgotou”. A preocupação de Daniela com o tempo é visível, principalmente quando o programa vai chegando ao fim. E é bom salientar que os entrevistadores, quase todos eles pescados da imprensa escrita, não são bons de vídeo nem de síntese. O anúncio da contratação de Daniela pela CNN Brasil, anunciada esta semana, pegou muita gente de surpresa. Daniela vai deixar o Roda Viva, onde estreou não faz muito tempo, bem como o jornal Folha de S.Paulo. Talento ela tem de sobra. Só precisa de mais tempo no programa que for fazer na emissora que está pousando no Brasil em março. Tirem os relógios de Daniella, assim ela vai brilhar ainda mais. 

O QUE SERÁ?

Não adianta negar. A TV Globo está passando por uma grande crise. Podem chamar de reestruturação, reengenharia, de novos tempos, do que quiser. Mas é crise. O número de funcionários demitidos ou que tiveram seus salários reduzidos é avassalador. Todo dia é gente demitida, é desculpa esfarrapada em comunicados oficiais. Enquanto o temor se espalha pelas redações, pelos jardins do Projac. A última vítima, a mais recente, foi o programa Como Será?, pilotado pela jornalista Sandra Annenberg, e apresentado nas manhãs de sábado. Como Será? era um oásis em meio a tantas notícias ruins. Para quem gosta de sangue, o programa era considerado bonzinho demais, o que chamamos de Jornalismo Ong. Mas o programa era sim jornalístico. Focado no bem, era um colírio nas manhãs de sábado, com um Ibope até digno para o horário, girando em torno de 6 pontos. As primeiras notícias davam conta de que alguns dos demitidos iriam ser aproveitados em outras áreas. Pode ser verdade, como pode ser conversa para boi dormir. Se a emissora está cortando na carne toda a programação, porque acabar com um programa e aproveitar alguns quadros em outros, que estão sendo esvaziados. Como Será? fez história. Muita gente, aquele pessoal que aproveita as primeiras horas da manhã para dormir, tirar o atraso da semana inteira acordando antes do sol raiar, nem chegou a conhecer o Como Será?, mas verdade seja dita: em seus cinco anos de vida, descobriu boas pautas e fez com que o fim de semana começasse em alto astral, apesar dos pesares. À Sandra Annemberg restou a apresentação do Globo Repórter nas noites de sextas-feias, ao lado de Gloria Maria. É pouco para ela. Com certeza, vai voltar à reportagem no próprio Globo Repórter. Na verdade, o que realmente está acontecendo na Globo é um pequeno mistério. Inimiga dos governos de esquerda, está vivendo o seu inferno astral bem num governo de extrema-direita.