LAVOISIER

A CNN Brasil vai mesmo entrar no ar no mês de março. Falta pouco e a expectativa é grande. Em vídeos curtos, a nova emissora solta nas redes sociais pílulas para entreter e emocionar os telespectadores, enquanto não começa a funcionar de verdade. Os funcionários da CNN Brasil parecem mais entusiasmados do que aqueles que trabalham na Globo e expressam isso no ar. Só faltam dizer “gente, eu estou na CNN Brasil e aqui parece melhor do que estar na Globo!” Alguns são apresentados à redação que os recebe com flores e aplausos de pé. Todos eles têm funcionado como garotos e garotas propagandas do novo canal. Tudo parece melhor: o local de trabalho, na Avenida Paulista, coração de São Paulo, os estúdios, os testes de voz, de camarim, os óculos que combinam com cada rosto, tudo parece ser mais que perfeito na CNN Brasil. Deixam a impressão de que tudo vai ser novo e interessante. Diferente de tudo que está aí. The best!!! Ontem, mostraram o logo de um de seus programas, o Live CNN Brasil. Numa pesquisa rápida, encontramos não vários logos parecidos, mas aquela chavezinha indicando conversa que não é novidade. Em quinze minutos de Google, encontramos mais de meia dúzia delas em outros logotipos, inclusive na concorrente. Aguardemos as novidades de verdade no programa Live CNN Brasil. 

[montagem VILLASNEWS]

BALAIO DE GATOS

Assistindo durante uma semana ao programa Estúdio i, apresentado de segunda a sexta na GloboNews, você chega à conclusão de que ficou sabendo um pouco sobre tudo, um nada sobre pouco ou um muito sobre nada. Apresentado pela animadíssima Maria Beltrão, Estúdio i, mistura jornalismo com entretenimento e com muitos pitacos de uma mesa que costuma variar diariamente. A bancada sabe tudo sobre tudo ou, pelo menos, dá pitaco sobre tudo. O assunto é jogado no ar e você passa metade da tarde ouvindo o que os comentaristas acham sobre as enchentes em Minas, o coronavírus se espalhando pelo mundo, o Brexit, os indicados ao Oscar ou, quem sabe, sobre a capivara que invadiu uma loja em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo. Todos opinam sobre tudo. O programa, não sei se revista, telejornal, mesa redonda de debates ou revista, às vezes é interrompido pelo voto de um juiz, pela coletiva do ministro da saúde ou uma votação na Câmara. Ou, quem sabe, por um factual, um incêndio, um assalto a ônibus no Rio. Corre o risco de uma sonolenta coletiva ocupar todo o tempo do programa, numa boa, sem problema. Dá uma certa aflição passar mais de duas horas, todo dia, ouvindo o que os integrantes da mesa acham sobre tudo e também o que os telespectadores, em forma de msg, pensam. A porção jornalismo geralmente entra no formato repórter-comentarista, que já foi falado aqui. O comentarista Valdo Cruz surge várias vezes no programa para comentar um pouco sobre tudo que se passa em Brasília. Muitas vezes o seu comentário é do tipo previsão: “tudo pode acontecer”. O lado pessoal de cada um que passa a tarde ali com o telespectador também é o forte do programa. Todo mundo tem um caso particular para contar ou, se não conta, a apresentadora pergunta: Você gosta de lasanha, Xexeo? E assim caminha o programa até que Beltrão anuncia que está chegando a hora de se despedir, como um lamento. O nome do programa? Talvez chame Estúdio i, i de impressionante!

[foto Reprodução GloboNews]

NOSSA LITERATURA

O jornal La Repubblica está colocando em todas as bancas da Itália, a partir de hoje, uma coleção de 25 livros de escritores latino-americanos, um por semana. A coleção começa com Gabriel García Márquez e o seu amor nos tempos do cólera. O segundo é Mario Vargas Llosa e o terceiro é Jorge Amado. Livros nas bancas de jornais, uma coleção impecável.

[foto Reprodução La Repubblica]

HISTÓRIA EM QUADRINHOS

O diário francês Libération é a minha Bíblia. Mesmo sendo um pouco distante daquele jornalzinho preto e branco de 1968, lançado nas ruas de uma Paris em chamas. Aquele jornal que não aceitava publicidade e era uma arma que se juntava às pedras do Boulevard St.Germain contra policiais e um governo conservador. Acompanho desde então o Libé, como sempre foi chamado. Já escrevi crônicas sobre essa paixão, artigos para o Caderno 2 do Estadão e também para a luxuosa revista The President. Não me canso de exaltar esse tabloide. Estou aqui hoje para falar da edição desta quinta-feira, 30 de janeiro, que está nas bancas espalhadas pela França. O meu amor por esse jornal é a sua criatividade. Ele está sempre surpreendendo os seus leitores, como eu. Procura nunca ser o óbvio, encadernado numa fórmula. Quando preciso rompe com o logotipo, rompe com o papel, rompe com qualquer ranço de tradição. Qual é a novidade de hoje? Aproveitando a ocasião do Festival de Quadrinhos de Angoulême, o maior do mundo, a redação entregou a quadrinistas todas as ilustrações do jornal. Nenhuma foto, só quadrinhos, em todas as páginas, ilustrando greves, coronavirus, Trump, Macron, gols, filmes, economia, tudo. Dá gosto acompanhar um jornal que nos surpreende a cada dia, desde 1968. 

[foto Reprodução]

FALA, CASÃO!

A presença do ex-jogador Walter Casagrande, o Casão, no Globo Esporte, apresentado de segunda a sábado na hora dos almoço, na Globo, é sempre curiosa, aberta, séria e às vezes divertida. Casão, sempre de preto, muitas vezes de óculos escuros e tênis All Star é uma figura bem anti-Global. Cabeludo, meio despenteado, ele marca uma boa presença no programa. Simpática e pontual. Na edição do GE na terça-feira, dia 28, parece não ter chamado muito a atenção das pessoas, talvez pela dinâmica do programa. No intervalo comercial, o jornalista Marcio Gomes, que substitui Maju Coutinho – emprestada ao Fantástico – apareceu para adiantar o que seria apresentado no JH. Chamou pra mais uma criança atingida por bala perdida no Rio enquanto jogava uma pelada com o pai na comunidade, e chamou também a tragédia das chuvas em Minas Gerais, as mortes e as pessoas sem casa, levadas pelas águas. Casão ficou com aquilo na cabeça e logo depois da primeira matéria apresentada pelo GE, ele desabafou, dizendo que estava preocupado é com aquela criança atingida por mais uma bala perdida e as pessoas que morreram ou estão sem casa em Minas Gerias, “conforme o Jornal Hoje vai mostrar daqui a pouco”. O seu companheiro de palco, meio sem saber o que dizer, falou apenas uma palavra: “beleza”, não que achasse aquilo bonito, mas por ter sido pego de surpresa. Fica aqui esse registro. 

[foto Reprodução TV Globo]

OS CLICKS

Era uma era que não havia celular para fotografar. A novidade era a Polaroid, aquela máquina que você clica e, em segundos, a foto começa a sair de dentro da máquina. Foi com uma Polaroid que Linda McCartney, nos anos 1970, casada com Paul McCartney, fotografou o cotidiano da família. O resultado é um livrinho luxuoso da Taschen, reunindo essas preciosidades. A edição italiana da revista Rolling Stone publicou algumas dessas fotografias. Veja abaixo. Em tempo: Linda morreu de câncer, aos 56 anos, em 1998. 

[fotos Linda McCartney/Reprodução]

E EIS QUE CHEGA A RODA VIVA

Não estou aqui para defender Bruno Covas, o prefeito de São Paulo. Estou aqui apenas para fazer algumas observações sobre o programa Roda Viva apresentado pela TV Cultura na noite de segunda-feira, dia 27. Bruno Covas passou recentemente pela sétima sessão de quimioterapia, no combate que faz a um câncer e lá estava ele, no centro da roda viva, respondendo a cada pergunta de uma bancada composta exclusivamente por jornalistas. Preocupados com a repercussão nas redes sociais, eles tentavam fazer perguntas quentes ou embaraçosas, deixando claro que precisavam de uma manchete pra estampar no seu jornal e nenhuma crítica nas redes sociais. Quem vai ser o seu vice nas eleições de outubro? Estavam todos eles sedentos por uma resposta. Essa seria a manchete dos sonhos. Mas o problema maior não está ai. O programa Roda Viva monta, toda semana, uma bancada, quase sempre de jornalistas da chamada grande imprensa: Folha, Estadão, O Globo, Valor, Veja e Época. Na noite de segunda-feira, se o prefeito Bruno Covas invertesse o jogo e perguntasse a cada um dos entrevistadores, há quanto tempo não andam de ônibus, as respostas seriam constrangedoras. Eu, pessoalmente, conheço jornalistas que não entram num ônibus há mais de três décadas. Dai o desconhecimento. Sei perfeitamente que São Paulo tem mais de mil problemas de transporte urbano, mas eu pergunto: Será que os jornalistas sabem que uma boa parte da frota de São Paulo tem ar condicionado? Tem carregador para celular? Tem rampa para pessoas com dificuldade de locomoção? Que você pode carregar o seu bilhete único dentro do próprio ônibus? Que ele tem um dispositivo que impede andar com as portas abertas? Que o Jornal do Ônibus, colado no vidro, informa que estão sendo construídos inúmeros corredores de ônibus na cidade? E que, em breve, vai ser possível pagar a passagem com cartão de débito? Garanto que nenhum dos jornalistas ali presentes sabia disso. Eles só andam de automóvel. O Roda Viva peca ai. Quem deveria estar na bancada na noite de segunda-feira? Dou algumas dicas: um representante de moradores de bairro, um urbanista, um paisagista, um representante dos sem-teto, um motorista de ônibus, um gari, um estudante, um idoso, um representante de uma entidade que faz coleta seletiva de lixo, isso para citar alguns exemplos. Os jornalistas que estavam ali, com certeza, passam o dia na redação conversando ao telefone com suas fontes. Não colocam os pés na rua. Pelo menos foi o que pareceu. Repito: uma cidade como São Paulo, com seus milhões e milhões de moradores, tem milhões de problemas. Não é de hoje que o crescimento desordenado e caótico impera por aqui. A verdade é que Bruno Covas foi muito convincente em suas respostas. Não foi muito difícil. Além de insistir em quem será o seu vice, uma jornalista voltou ao assunto calçadas da cidade. Disse que não vê uma calçada sendo consertada. Para mostrar a ela, fotografei hoje cedo, terça-feira, dia 28, as calçadas que estão sendo arrumadas aqui na Lapa, onde moro. Começaram os trabalhos no sábado e a obra está a todo vapor. A Praça Cornélia, também aqui na Lapa, foi totalmente reformada, inclusive ganhando aparelhos de ginástica para a terceira idade. Resumo da ópera: Faltou no Roda Viva, gente que anda nas ruas da cidade. E sobraram jornalistas que vivem apenas nas redações.

As calçadas sendo consertadas na Rua Faustolo, na Lapa

A placa mostra que a obra é da prefeitura

[foto Bruno Covas/Reprodução TV Cultura]

[fotos obras/Alberto Villas]

ERRATA

Diferentemente do que foi publicado neste blog na semana passada, no texto “Direto de Chinatown!”, sobre o coronavírus, a repórter Carolina Cimenti, da GloboNews, disse que estava em Chinatown, bairro de Nova York, e fazendo o quê ali. 

[foto Reprodução TV Globo]