O ÚLTIMO LEITOR

Este senhor enrolou o exemplar do jornal O Estado de S.Paulo como se fosse um canudo de papel e enfiou na sua bolsinha preta de pano, numa manhã nublada em São Paulo. Antes de ajeitar o jornal na bolsinha, sentei ao seu lado e comentei ter visto ali uma cena rara: alguém que ainda lê jornal de papel. De poucas palavras, ele sorriu e comentou que compra o Estadão todas as quartas-feiras por causa do Jornal do Carro que vem encartado. Ele me contou que tem 84 anos, mora na rua Catão e estava ali esperando o ônibus Ipiranga. Retirou o jornal da sacolinha preta e apontou para uma chamada na primeira página que, segundo ele, o deixou horrorizado: “União paga pensão a 52 mil filhas solteiras”. Comentei que a atriz Maitê Proença estava nessa lista, ele mostrou cara de desinteresse como perguntasse aos seus botões, quem é essa? Ouvindo com dificuldade e falando baixinho, ele disse que talvez fosse um dos últimos leitores. “Não vou muito longe, disse”. Tentei animá-lo dizendo que, aos 84 anos e ainda andando de ônibus em São Paulo era sinal de que iria longe sim, que poderia passar dos 100, quem sabe? “Não chego lá não”, murmurou. E me contou que na porta de onde mora, colou uma folha de papel com um aviso aos vizinhos: “Se sentirem mau cheiro, chamem a polícia”. Achei triste aquilo, mas ele completou que é a realidade. O ônibus chegou, ele subiu com uma certa agilidade e foi-se embora. Fiquei ali esperando o ônibus Paraíso e pensando:  Quem vai morrer mais cedo? Este senhor ou o jornal?

[foto Alberto Villas]

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