AO VIVO

Aconteceu sábado passado, diante o programa É de casa, na TV Globo. O repórter reuniu uma pequena turma de motoboys, entregadores de comida e outras coisas mais. Um papo ótimo. Eles explicaram como tem sido esses dias de coronavírus, nada fáceis. Quando o repórter ia se despedindo, um deles chamado Paulo, pediu a palavra: “Eu queria acrescentar uma coisa”. Educado, o repórter deu a palavra ao motoboy, que soltou os cachorros. Disse que o trabalho deles é muito pesado, é muita pressão, ganham pouco, qualquer coisinha que acontece são advertidos, cassados e terminou: “Eu tenho consciência de que o que eu faço é trabalho escravo!” Enfim, TV ao vivo é outra coisa.

[foto Reprodução TV Globo]

LAR, DOCE LAR

Hoje temos a segunda leva de repórteres em home office e seus livros nas estantes. Captamos “Gênesis” na prateleira do comentarista Ricardo Amorim, o livro “História da Feiura” na casa da Cecília Malan, em Londres, “Asad – The Struggle for the Middle East” na casa de Guga Chacra, em Nova York e “Radical Chic” chez Leilane Neubarth. 

[fotos Reprodução GloboNews]

BYE BYE PAPEL

O jornal político e satírico francês Le Canard Enchaîné, fundado em 1915, nunca teve sua edição online. No entanto, desde a semana passada, Le Canard (é uma expressão que os franceses usam para um jornal tipo pasquim) deixou temporariamente sua edição em papel e adotou a online. O coronavírus está mudando o mundo. 

GABRIELA, CRAVO E CANELA

A primeira sacudida na redação da CNN Brasil, em 15 dias de vida, foi a revolta da comentarista e advogada Gabriela Prioli, atração do quatro #grandedebate, todas as manhãs. Ela pediu demissão, situação confusa porque horas depois, a CNN tentou reverter a situação e informou que ela “pediu para sair do programa”. Ainda não se sabe se ela fica ou vai embora da emissora. Se ficar, não vai ser mais no debate. Gabriela brilhou e chamou atenção desde o primeiro momento, quando estreou jantando (esse foi o termo usado por todos nas redes sociais) o bolsonarista Caio Coppola, que se afastou do programa alegando problemas de saúde. O direitista Tomé Abduch substituiu Coppola e também foi jantado por ela. No meio do debate, o apresentador Reinaldo Gottino, meio atônito com o “bate-boca”, tentava colocar panos quentes e, assim que Gabriela pediu demissão, veio a público se desculpar com ela, pedindo perdão pela falta de educação para com ela, em alguns momentos. “Eu digo a vocês, de forma reiterada, para se posicionarem, serem firmes e não cederem diante de comportamentos que vocês considerem inadequados. Se agora, quando a vida demanda isso de mim, eu agisse de outra forma, estaria sendo hipócrita”, postou Gabriela nas redes sociais. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.  

 

 

HOME OFFICE

Nesses tempos em que jornalistas e comentaristas trabalham em casa, o meu divertimento é observar que livros têm em casa. A maioria tem como cenário suas bibliotecas, o que é ótimo. Vamos começar com a biblioteca da jornalista de economia e política, Miriam Leitão, onde captamos o livro O Lulismo no Poder, de Merval Pereira. Na estante da jornalista Andréia Sadi,  o livro Antologia da Maldade, de Gustavo Franco e Fabio Gambiagi. Na biblioteca de Demétrio Magnoli, O Livro de Manuel, de Julio Cortázar. E por fim, na casa do jornalista Marcelo Courrege, The Complete Novels, de Fiódor Dostoiévski. 

 

OITO

Sobraram ainda alguns limões sicilianos da nossa compra de mercado feita há dez dias atrás. Na despensa, ainda havia um pacote de arroz arbóreo e foi dele que surgiu na nossa mesa um risoto de limão siciliano digno de um dia de domingo. Colocamos a mesa e almoçamos. Bebi a última garrafinha de Estrella Galícia. Os próximos dias, enquanto o supermercado não entrega nossa compra, tudo vai ser muito mais simples. Mais simples que um omelete, porque ovo, o último foi num bolo. A manchete da Folha nos inquieta, as pessoas passando fome nas favelas. Vou acrescentar na compra do supermercado, mais arroz e feijão. Temos de encontrar uma maneira de colocar dentro da janelinha do Senac Moda, onde as pessoas deixam roupas que não vão usar mais e onde, toda semana, deixo lá as revistas lidas que não guardo. Na televisão vejo imagens do lunático percorrendo as cidades satélites de Brasília, fazendo selfies com crianças, imitando Hitler. Tal e qual. De noite, um certo alívio quando lemos que o Twitter retirou do ar, mesmo que tarde demais, as postagens do idiota em pessoa. As ruas estão vazias por aqui, mas nem tanto. Deveriam estar mais, completamente às moscas. Nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro as cidade vazias. Milão, Nova York, Paris, Berlim, Lisboa, Roma, Madri. Alguns jornais daqui mostram um idiota na Ceilândia cercado de pessoas que o seguem com se ele fosse o flautista de Hamelim. Hoje é dia de home office. A ideia é começar a fazer exercícios dentro de casa. Uma filha faz pilates na sala da casa dela e manda a foto. A outra, quando ligamos, estava ofegante, fazendo exercícios com Jane Fonda. A terceira, deu sorte de morar numa casa e é no quintal que encontra sua liberdade com meu netinho. O quarto, mora num sítio e está se guardando também. Todos nós. Que vida há la fora? Sem futebol, o Globo Esporte sumiu, o Esporte Espetacular sumiu, o Lance sumiu. Na França, pela primeira vez, o jornal Le Canard Enchaîné deixou de circular, virou online sem nunca ter sido antes. Em Portugal, a Time Out Lisboa virou Time In Lisboa. Os guias da metrópole onde moro sumiram do mapa, bem como os suplementos de turismo. Tem alguma coisa no ar e não é mais aquele avião de carreira. Assim caminha a humanidade.

[foto Reprodução/Matisse – detalhe]

SETE

Eu preciso te falar,
Te encontrar de qualquer jeito
Pra sentar e conversar,
Depois andar de encontro ao vento.
Eu preciso respirar
o mesmo ar que te rodeia,
E na pele quero ter
o mesmo sol que te bronzeia,
Eu preciso te tocar
e outra vez te ver sorrindo,
e voltar num sonho lindo
Já não da mais pra viver
um sentimento sem sentido,
Eu preciso descobrir
a emoção de estar contigo,
Ver o sol amanhecer,
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo.

[Como um dia de domingo/Michael Sullivan-Paulo Massadas • trecho]

SEIS

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. 
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas 
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra 
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra 
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. 
Na verdade, o homem não era necessário 
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. 
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias 
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa 
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos 
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra. 
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes 
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia 
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo 
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia, 
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias 
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio 
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula. 
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos 
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas 
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade 
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo 
E para não ficar com as vastas mãos abanando 
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança 
Possivelmente, isto é, muito provavelmente 
Porque era sábado.

[Dia da Criação/Vinicius de Morais – Parte III]

foto Fan Ho

CINCO

O vírus perderá a coroa.

Há vírus, sim, mas há o esplendor do céu azul que me entra pela vidraça e a música de Gershwin que ouço nesta manhã de reclusão forçada. Tão bela, tão bela que eu gostaria de ouvir bem alto de modo a compartilhá-la com os vizinhos.

Mas a boa educação não permite. E eu ainda me julgo educado.

Um americano em Paris é o nome do concerto. Americano numa Paris de outros tempos. Qual seria a representação musical que outro americano comporia para a Paris de hoje?

Meu gosto musical é eclético e após a erudita composição de Gershwin em CD, ponho no toca-discos (sim, sou moderno e antiquado) o vinil de nossa eterna caipira, Inezita, e ouço Lampião de Gás, canção que fala de uma São Paulo de outros  tempos, tão antigos que nem eu que já sou muito antigo vivenciei.

 Sampa, de Caetano Veloso ou São São Paulo Meu Amor, de Tom Zé são do meu tempo. Mas como seria uma melô para esta Sampa de hoje, a Sampa que nestes dias, está paralisada pelo coronavírus?

Como diz Camões em um dos seus belos poemas, o mundo é feito de mudanças. Tudo muda e tudo passa. Tudo? O vírus passa, porém quero crer que a beleza da literatura, da dança, do cinema, do teatro, enfim da Arte humana, esta não passará. Pelo menos enquanto houver um ser humano sobre a terra.

Portanto, minha amiga, meu amigo, esta reclusão que vivenciamos, logo, logo, passará. Aproveite-a e divirta-se. Leia ou releia uma boa obra, prosa ou poesia, reveja bons filmes e, sobretudo, ouça boas músicas…

As dançáveis, dance-as com sua parceira ou seu parceiro. Solitário ou solitária? Dance solitariamente, pois só pode ser boa companhia para outros quem é boa companhia para si mesmo.

Vida é movimento, movimento que pode ser apenas interior quando, por exemplo, você ouve uma sinfonia executada por uma grande orquestra ou um solo de piano ou flauta…

Portanto, meu caro, minha cara, aproveite a reclusão forçada e do limão faça uma limonada.

Leia poesias, ouça música e cante ou dance com a certeza de que esse famigerado coronavírus, breve, breve, perderá sua coroa.

QUATRO

Saudade de lá fora. Da calçada esburacada, de correr dos carros na hora de atravessar a rua, do bar e lanches, do ponto de ônibus, dos grafites nos muros, das bancas de jornal, do cheiro de pão na porta da Fabrique, do sacolão que vende Fanta pêssego, da Livraria da Vila, da fila na Lotérica Sorte Grande, dos cachorros que cruzo. Já se vai mais uma semana que não coloco os pés na rua. Escrevo muito, trabalho, rego minhas plantas, observo o crescimento das sementes de limão nas canecas colorias, vejo o bolo sair do forno, o barulho seco dos boletos que ainda jogam debaixo da porta da sala. E vejo muita televisão, todas as noticias que vêm dos canais à cabo, principalmente. De olho na GloboNews, experimento a CNN Brasil e, aqui chamo a atenção para o programa #grandedebate, que não perco, a melhor coisa que tem por lá. Mas, no fim da manhã, estava eu sintonizado na GloboNews vendo a coletiva do governador João Doria, o político mais educado dos últimos tempos. Certamente fez curso para agradecer cada jornalista numa coletiva. Agradece, manda um abraço, elogia e solicita, por obséquio, “a sua pergunta”. Ontem foi assim, mas quando disse ao final,” então vamos à pergunta da CNN Brasil” e a jornalista disse “gostaria de dizer que a CNN Brasil está transmitindo ao vivo essa coletiva”, no switcher, o diretor de TV simplesmente cortou para as apresentadoras no estúdio, aparentemente sem saber o que tinha acontecido. Nunca tinha visto a GloboNews cortar bruscamente uma coletiva, a não ser em nome de uma notícia mais importante, de última hora, um plantão. Mas foi assim. A GloboNews cortou a pergunta da CNN Brasil, a nova emissora que agora está no ar e no seu pé. Mudei pra CNN Brasil e lá estava o Doria respondendo à pergunta que não ouvi na emissora concorrente. Mas eis que de repente, na coletiva seguinte, quando se ouviu “agora vamos a pergunta da jornalista Delis Ortiz, ouviu-se uma voz grave do âncora da CNN Brasil, que abafou a pergunta da jornalista da Globo: “Bem estamos transmitindo ao vivo, diretamente de Brasilia…” e ficou falando até que a pergunta da Delis chegou ao fim. Então ouvimos a resposta da pergunta que não escutamos. Tem uma guerra no ar, guerra mais boba. 

(Alberto Villas)