O SHOW DA VIDA

Ninguém podia imaginar que uma reportagem conduzida por um prestigiado médico, o doutor Drauzio Varella, e levada ao ar no primeiro dia de março, fosse provocar tamanha polêmica. Na verdade, um minidocumentário sobre a vida das pessoas trans dentro das cadeias brasileiras. O abraço de compaixão e amizade dado em Suzy, que não recebia visitas há sete, oito anos, segundo ela, foi o estopim. Depois que a reportagem foi ao ar, os inimigos do doutor Drauzio descobriram que Suzy estava ali porque estuprou e matou uma criança. Todos conhecem o trabalho do doutor Drauzio, há décadas. O seu trabalho como oncologista, como voluntário no tratamento de presos, os livros que escreveu, principalmente “Estação Carandiru”, publicado pela Companhia das Letras e que já vendeu mais de 500 mil exemplares. O seu trabalho na televisão sempre foi impecável. Series inesquecíveis sobre gravidez, o vício do fumo, os primeiros socorros e tantas outras. Mas o pecado do médico e que os direitistas querem crucificá-lo, merece algumas observações. Trabalhei na Globo por mais de uma década e sei o quanto a emissora evita dar voz a presos. Quando deu voz a Suzane von Richthofen, assassina dos pais, a reportagem mostrou que ela era uma farsante e a jovem acabou voltando pra cadeia depois da exibição naquele domingo. Não consigo imaginar como a produção do outrora Show da Vida não procurou saber o crime de cada um de seus personagens. A pauta do doutor Drauzio não eram os crimes cometidos por cada um, mas apenas a vida de trans dentro da cadeia. A reportagem merece nota 10, mas a prova acabou sendo anulada. Como aquele gol de placa em que o jogador estava em impedimento. O médico deixou claro que é médico e não juiz em um comunicado no seu site, logo após a bomba estourar. Na noite de terça-feira (10), ele apareceu no Jornal Nacional, num longo depoimento, passando a limpo toda a polêmica e pedindo desculpas à família do garoto estuprado e morto por Suzy. Resumo da ópera: Foi sim um erro da produção do programa não levantar a ficha de seus personagens, já que estavam todos atrás das grades. O ódio despejado nas redes sociais contra Drauzio Varella tinha sim a finalidade política de mostrar que o médico não é uma unanimidade. Quem conhece de perto Drauzio Varella sabe da sua seriedade, da sua competência como médico, do seu talento como escritor e da sua atuação impecável como repórter e voluntário nas profundezas desse Brasil. Na noite de terça, ele tranquilizou seus inimigos – numa sutil referência aos bolsonaristas – afirmando que não é candidato a nada. O medo da direita era esse e ele acertou na mosca. Além de todos os predicados acima, vale salientar que Drauzio é também colunista da Folha de S.Paulo e da revista Carta Capital. Por ai da para entender tanto ódio dos fiéis que acompanham o capitão Messias. 

[AV]

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