UM


Numa hora dessas, o planeta Terra deve estar sentindo um vazio dentro dela. As ruas sem ninguém, a alma, a cabeça, cheias. Cada qual no seu canto e em cada canto uma dor. A banda não passa lá fora e não vai tocar tão cedo. Recolhidos estamos, cada um nos seus metros quadrados. Aqui são exatamente cem, que agora conheço centímetro por centímetro, como a palma da minha mão. Tem gente nas ruas, os médicos, as enfermeiras, os auxiliares, os lixeiros, os garis, os moradores de rua e tantos outros. Pensemos neles. Vamos sobrevivendo. Acordo cedo e pego a Folha jogada no capacho. Quem trouxe até a minha casa? Quem subiu o elevador e a jogou no capacho? A capa é azul e vejo online que todas as capas dos jornais brasileiros são iguais nessa manhã de segunda-feira: “Juntos vamos vender o vírus”. Do outro lado, desunido, desorientado, burro mesmo, temos um presidente imbecil, presente apenas no quadradinho de humor dos jornais, nos cartuns. Passo os olhos em dezenas de jornais do mundo. As pessoas usando máscaras nas fotografias nas primeiras páginas vão desaparecendo, dando lugar a grandes galpões, estádios de futebol improvisados em hospital. E ruas vazias, muitas ruas vazias. A Paulista, a beira do Sena em Paris, Picadilly Circus em Londres, Central Station em Nova York, a Ponte Vechio em Florença, a Praça Dam em Amsterdam, a Fontana di Trevi em Roma, o coreto em Santa Rita do Sapucaí., a Praça de São Pedro, nenhuma alma viva. Penso no poema de Drummond e pergunto para os meus botões: E agora, José? Pessoas estão aprendendo a lavar louça, a arrumar a cama, a fazer almoço, a varrer o chão, a lavar o banheiro, a colocar a mesa do café. Todos os dias passava debaixo do Viaduto Presidente João Goulart e via os moradores, alguns dormindo, outros acordando, uns fazendo o café numa fogueirinha de papel, o cão ao lado. Onde eles estarão, eu me pergunto. Da minha janela, vejo um enorme jardim e, sorte nossa, o sol despontando. Que seja bem vindo, que traga o calor, que espante o vírus. Tenho um dia inteiro pela frente. Informações a dar, um jornal para apresentar, um livro para escrever, uma crônica pra Carta Capital. O almoço, o chão por varrer, as plantas para molhar, a roupa para lavar. Não posso parar de pensar. [AV]

 

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