DOIS

Hoje acordei, percorri meus metros quadrados, tomei meu Puran 25mcg, vi que tinha sol lá fora. Passei álcool gel nas duas mãos e no antebraço, peguei a Folha de S.Paulo e vi, de cara,  que encolheram a Ilustrada. Ontem já tinham encolhido a Mônica Bergamo e hoje foi o caderno onde ela está hospedada. O mesmo aconteceu com o Caderno 2, que desapareceu hoje pela primeira vez do jornal, desde abril de 1986. Virou um caderno chamado Na Quarentena. Cinema lá fora não há mais, como não há mais teatro, shows, livrarias, Sescs, Senacs, sebos, cantadores de rua. Restou a televisão, o Netflix, a Globoplay, alguns shows via Internet, todos em carreira solo e os livros e discos de cada um. Trabalho o dia inteiro nesses meus metros quadrados e me alegro em ver o sol lá fora assim tão cedo. Dizem que espanta coronavírus. De tempos em tempos ligo, de tempos em tempos desligo a televisão, passo quinze minutos na rede, mergulhado na Escravidão, de Laurentino Gomes. Observo as plantas crescerem. O abacateiro enorme, o inhame quase na hora de colher, os tomateiros subindo, as ervas verdes, por enquanto. Não sei como vai ser no futuro. Nunca o slogan “no future” dos primeiros punks que surgiram em Londres foi tão atual. Descubro velhos discos ainda em CD para ouvir, discos que não ouvia há anos: Michelle Phillips e Denny Doherty, ex-mama e ex-papa. Releio poemas de Ernesto Cardenal, esquecido lá na prateleira do alto, quando fuço a biblioteca. Apresento o Jornal do Fim da Tarde, do Nocaute, no Youtube e me alegro ao conversar com os internautas, cada um no seu canto. Eles me dão força pra não sucumbir. Ainda não estou puxando o cabelo nervoso querendo ouvir Cely Campelo pra não cair. Ouço Letrux Aos Prantos e me animo. Por incrível que pareça, a gente vai levando. [Alberto Villas]

•••  

“Em quarentena, descobri que meu avô viu seu pai ser assassinado.  Nunca me envolvi sentimentalmente com ele. Tinha um semblante pesado, olheiras fartas, inchadas – emanava medo e distância. Um cheiro estranho – eram suas roupas, sempre cinzas – moda romena, antiquada, corte reto e suturado. Nunca me fez um carinho, apesar de sua gentileza. Não me lembro de sua voz e nenhum de seus sorrisos consigo engendrar. Será que algum dia sorriu? Como será sorrir-superar a morte matada de um pai? Viver uma vida aterrorizado por lembranças de perseguição, da Guerra, do genocídio? Ouvir, dia a dia – na vigília e sonho – o tiro seco, o tombo ríspido, o barulho aterrorizante de um corpo caído? Será que é isso que também nos espera? Uma catástrofe, uma hecatombe – e se eu sobreviver, terei o mesmo semblante pesado do meu avô? Sim, eu tomarei seu lugar, e meus netos me olharão com a ausência e a frieza com que encarava o agora compreendido avô”.
[texto do escritor Jacques Fux, que recebi por e-mail]

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