QUATRO

Saudade de lá fora. Da calçada esburacada, de correr dos carros na hora de atravessar a rua, do bar e lanches, do ponto de ônibus, dos grafites nos muros, das bancas de jornal, do cheiro de pão na porta da Fabrique, do sacolão que vende Fanta pêssego, da Livraria da Vila, da fila na Lotérica Sorte Grande, dos cachorros que cruzo. Já se vai mais uma semana que não coloco os pés na rua. Escrevo muito, trabalho, rego minhas plantas, observo o crescimento das sementes de limão nas canecas colorias, vejo o bolo sair do forno, o barulho seco dos boletos que ainda jogam debaixo da porta da sala. E vejo muita televisão, todas as noticias que vêm dos canais à cabo, principalmente. De olho na GloboNews, experimento a CNN Brasil e, aqui chamo a atenção para o programa #grandedebate, que não perco, a melhor coisa que tem por lá. Mas, no fim da manhã, estava eu sintonizado na GloboNews vendo a coletiva do governador João Doria, o político mais educado dos últimos tempos. Certamente fez curso para agradecer cada jornalista numa coletiva. Agradece, manda um abraço, elogia e solicita, por obséquio, “a sua pergunta”. Ontem foi assim, mas quando disse ao final,” então vamos à pergunta da CNN Brasil” e a jornalista disse “gostaria de dizer que a CNN Brasil está transmitindo ao vivo essa coletiva”, no switcher, o diretor de TV simplesmente cortou para as apresentadoras no estúdio, aparentemente sem saber o que tinha acontecido. Nunca tinha visto a GloboNews cortar bruscamente uma coletiva, a não ser em nome de uma notícia mais importante, de última hora, um plantão. Mas foi assim. A GloboNews cortou a pergunta da CNN Brasil, a nova emissora que agora está no ar e no seu pé. Mudei pra CNN Brasil e lá estava o Doria respondendo à pergunta que não ouvi na emissora concorrente. Mas eis que de repente, na coletiva seguinte, quando se ouviu “agora vamos a pergunta da jornalista Delis Ortiz, ouviu-se uma voz grave do âncora da CNN Brasil, que abafou a pergunta da jornalista da Globo: “Bem estamos transmitindo ao vivo, diretamente de Brasilia…” e ficou falando até que a pergunta da Delis chegou ao fim. Então ouvimos a resposta da pergunta que não escutamos. Tem uma guerra no ar, guerra mais boba. 

(Alberto Villas)

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