OITO

Sobraram ainda alguns limões sicilianos da nossa compra de mercado feita há dez dias atrás. Na despensa, ainda havia um pacote de arroz arbóreo e foi dele que surgiu na nossa mesa um risoto de limão siciliano digno de um dia de domingo. Colocamos a mesa e almoçamos. Bebi a última garrafinha de Estrella Galícia. Os próximos dias, enquanto o supermercado não entrega nossa compra, tudo vai ser muito mais simples. Mais simples que um omelete, porque ovo, o último foi num bolo. A manchete da Folha nos inquieta, as pessoas passando fome nas favelas. Vou acrescentar na compra do supermercado, mais arroz e feijão. Temos de encontrar uma maneira de colocar dentro da janelinha do Senac Moda, onde as pessoas deixam roupas que não vão usar mais e onde, toda semana, deixo lá as revistas lidas que não guardo. Na televisão vejo imagens do lunático percorrendo as cidades satélites de Brasília, fazendo selfies com crianças, imitando Hitler. Tal e qual. De noite, um certo alívio quando lemos que o Twitter retirou do ar, mesmo que tarde demais, as postagens do idiota em pessoa. As ruas estão vazias por aqui, mas nem tanto. Deveriam estar mais, completamente às moscas. Nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro as cidade vazias. Milão, Nova York, Paris, Berlim, Lisboa, Roma, Madri. Alguns jornais daqui mostram um idiota na Ceilândia cercado de pessoas que o seguem com se ele fosse o flautista de Hamelim. Hoje é dia de home office. A ideia é começar a fazer exercícios dentro de casa. Uma filha faz pilates na sala da casa dela e manda a foto. A outra, quando ligamos, estava ofegante, fazendo exercícios com Jane Fonda. A terceira, deu sorte de morar numa casa e é no quintal que encontra sua liberdade com meu netinho. O quarto, mora num sítio e está se guardando também. Todos nós. Que vida há la fora? Sem futebol, o Globo Esporte sumiu, o Esporte Espetacular sumiu, o Lance sumiu. Na França, pela primeira vez, o jornal Le Canard Enchaîné deixou de circular, virou online sem nunca ter sido antes. Em Portugal, a Time Out Lisboa virou Time In Lisboa. Os guias da metrópole onde moro sumiram do mapa, bem como os suplementos de turismo. Tem alguma coisa no ar e não é mais aquele avião de carreira. Assim caminha a humanidade.

[foto Reprodução/Matisse – detalhe]

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