A LUTA CONTINUA

O Primeiro de Maio na França não é um feriado como os outros. No Dia do Trabalho, os operários de todos os cantos saem às ruas para fazer suas reivindicações, lembrar suas lutas, seus heróis, sua batalha sem fim. Mas este ano não vai ser igual aquele que passou. O Primeiro de Maio confinado é assunto de capa do jornal Libération desta quinta-feira.

(foto Reprodução]

O VELHINHO DE TAQUARITINGA

Não há nada mais patético no “jornalismo” do que ouvir os comentários de Augusto Nunes na Rádio Jovem Pan. Depois de passar dez anos sendo pago para criticar o Partido dos Trabalhadores, sua missão agora é defender o governo Jair Bolsonaro, duela a quem duela. Na quinta-feira, Augusto Nunes se ajeitou na cadeira e teve coragem de dizer que era absurda a decisão do juiz Alexandre de Moraes em suspender a posse de Alexandre Ramagem, amigo íntimo do filho de Bolsonaro (acusado de inúmeras falcatruas), como diretor-geral da Polícia Federal. “Que crimes Ramagem cometeu?”, perguntou Nunes ajeitando-se novamente na cadeira. E argumentou: “Lula não nomeou o Palocci? o Zé Dirceu?”. Vocês já ouviram o presidente Bolsonaro elogiando Nunes em suas lives? Pois é, deu nisso. 

[foto Reprodução/Jovem Pan]

ARTE MANIA

A jornalista Cristina Serra, que trabalhou durante muitos anos como repórter (para mim, especial) na TV Globo, postou  no Facebook nesta quarta-feira (29), um texto curto sobre um assunto que já estava na minha cabeça há algum tempo, essa mania que tomou conta da televisão de transformar em arte, longos documentos jurídicos. Cristina escreveu: “Gosto muito de assistir aos telejornais. Afinal, fiz isso a maior parte da minha vida profissional. Mas essa coisa de incluir nas matérias o texto original de decisões do Judiciário e notas e mais notas me leva ao controle remoto imediatamente Não dá, simplesmente, para resumir a essência do que diz a decisão ou a nota? Não é esse, afinal, o nosso trabalho? Simplificar as coisas para o público mais amplo?” Respondi a ela concordando, assinando embaixo, e acrescentando que, na minha opinião, é mais trabalhoso tentar decifrar para o grande público. Pra evitar erro, , vai na arte, documentos com todo juridiquês dos textos. Aí não tem erro, mesmo que as pessoas não entendam quase nada. 

 

URUBU

Quando eu era criança, havia um matadouro dentro da cidade onde nasci. Sempre que íamos visitar o meu avô, em Santa Tereza, a gente passava por ele. De longe, sentíamos um mau cheiro que fazia meu pai fechar o vidro do Jeep girando a manivela porque ainda ainda não havia vidro elétrico. Passava, ele abria novamente o vidro, mas mesmo assim o “fedô” – como chamávamos – ainda persistia por alguns minutos. Eu nunca gostei de passar na porta do Matadouro Modelo, que todos chamam de Perrela. Imaginava bois e vacas sendo sacrificadas ali dentro, carne para um lado, ossos enormes para o outro, restos de gordura no chão, pele e sangue. Aquilo era a minha imaginação. Diziam que os animais eram abatidos com uma cacetada na cabeça, que ficavam tremendo, agonizando por um longo período, até o coração parar e os funcionários entrar em ação para destrinchar aquele animal enorme. Sentia que estávamos chegando perto do matadouro quando via os primeiros urubus voando no céu azul de Belo Horizonte. No telhado daquele galpão enorme e fúnebre, os urubus saltitavam meio desajeitados disputando um pedaço de muxiba, que é como chamávamos os restos de carne. Eram muitos e viviam por ali. O urubu sempre me impressionou. Meu pai dizia que onde tinha urubu voando é porque tinha carniça por perto. Era mesmo. Na estrada, bastava avistar um urubu que, daqui a pouco, enxergávamos o cachorro morto no acostamento. Só me simpatizei um pouco com ele quando Tom Jobim lançou um disco com o seu nome. Fiquei impressionado, mas sabia da paixão de Tom pelas aves: sabiá laranjeira, cardeal, azulão, perdiz e até aquela com nomes que só ele conhecia. Tururim, inambu-de-coroa-preta, jacupiranga, mutua-do-norte, mergulhão, curicaca, essas aves brasileiras. Tom era capaz de reconhecer todos os urubus que eu, menino, achava que era um só. Urubu-rei, urubu-de-cabeça-amarela, urubu-da-mata, urubu-de-cabeça-vermelha. Depois de muito tempo sem ver um urubu aqui na maior cidade da América do Sul, pude revê-los anos atrás em Belém do Pará, onde fotografei um em pleno voo. Sempre tive um certo medo de urubu. E agora ele voltou. 

[foto Alberto Villas]

O PEQUENO LIBÉRATION

O diário francês Libération vem criando novos leitores não é de hoje. O suplemento Le P’tit Libé desta semana coloca uma lupa no coronavírus para que a juventude entendam tudo o que está se passando no mundo. Esses leitores vão crescer e vão ler qual jornal? Libération, é claro.

[foto Reprodução)

A NOVIDADE

Quando bati os olhos nessa propaganda de vinagre balsâmico de página inteira no jornal italiano La Repubblica, voltei a 1986 quando estávamos – Luiz Fernando Emediato e eu – mergulhados no projeto do Caderno 2 do Estadão. Nessa época, ele ainda se chamava ETC e os números zero iam saindo uns atrás dos outros. A nossa ideia era publicar quadrinhos para adultos na última página. Ainda vivia impregnado pelos quadrinhos da revista (A Suivre) e queria trazer para o Brasil as histórias de Milo Manara, Carlos Sampayo, José Muñoz, Marcel Gotlib, Comès, essa turma. Fizemos vários números experimentais e a página de HQ ia ficando cada vez mais linda. Na hora H, o suplemento mudou de nome, de ETC passou para Caderno 2 e as histórias em quadrinhos para adultos caiu por água abaixo. A direção optou pela Turma da Mónica, por já ser conhecida do público em geral. A propaganda do vinagre balsâmico  mostra uma fatia de queijo Brie com seis gotinhas do tal azeite, como se fosse uma peça de dominó. Meio enigmático, meio minimalista. Fico imaginando o dono do balsâmico argumentando que ninguém entenderia direito, que seria melhor colocar o azeite em cima de uma mesa, rodeado de pães, saladas e queijos e uma família feliz em volta. Se estou aqui a 10 mil quilômetros de distância comentando este anúncio de vinagre balsâmico italiano, que mostra uma peça de dominó em formato de Brie, é porque chamou atenção. Eu sempre fui mais Comès, Muñoz, Sampayo, Crumb, essa turma.

[foto Reprodução] 

HOJE É DIA 29

Hoje é dia de comer o nhoque da sorte e, ainda é cedo, não sei se teremos. Nunca pesquisei que história é essa, de onde veio, preciso. Comíamos nhoque todo dia vinte e nove e tem mais. Colocávamos uma nota de um dólar, hoje quase seis reais, debaixo do prato. Tínhamos certeza de que a sorte viria e veio. Estamos aqui até hoje, de pé. Fazer nhoque hoje aqui para poucos, sei não. Faz tanta sujeira na cozinha, farinha pra todo lado, melhor não. Nice não vem tão cedo pra dar aquele trato. Vou ficar calado, não vou lembrar da data, mas pensando bem, estamos precisando de sorte e nhoque. Sorte pra nos tirar dessa prisão domiciliar, ganhar as ruas sem perigo de contaminação, lavar as máscaras pela última vez e nem sei se guardar de lembrança ou para o próximo vírus. Precisamos de sorte para tirar esse analfabeto do poder, cortar as asas dele, mandar-lo de volta para o condomínio da Barra, nunca mais lembrar o seu nome. Precisamos de sorte para escaparmos dessas dessas duas pragas, cada vírus pior do que o outro. 

COMIDA É ARTE

A edição desta terça-feira (28) do jornal francês Le Monde e da nossa Folha de S.Paulo, em meio a tantas notícias, traz um debate sobre o futuro das galerias de arte na era pós-pandemia. A França se prepara para a flexibilização à partir de 11 de maio, bem como o Brasil, apesar do confinamento por aqui nunca ter existido pra valer, de verdade. Lendo as duas matérias, concluímos que o mundo precisa começar do zero, que está tudo fora da ordem. Vale a leitura.

[foto Reprodução] 

VI E GOSTEI

Foi um belo programa para uma segunda-feira à noite. No centro da roda-viva estava o fotojornalista Sebastião Salgado, mesmo que à distância que a pandemia exige. Uma conversa serena, inteligente, tanto por parte do entrevistado como dos entrevistadores. Ninguém ali queria ser vedete, aparecer um mais que o outro. Salgado, um dos mais conceituados fotógrafos do mundo é um militante da natureza. A cada pergunta, fazia uma pequena palestra, inteligente, ia expondo seu pensamento. Como vê o mundo, o planeta Terra e seus habitantes. O homem que passa a vida com os olhos na lente, ao falar, mantem os olhos praticamente fechados. Foi uma aula, dessas que a gente assiste e sai de alma lavada. Ao comentar o risco que os povos indígenas correm, Salgado disse: “Temos um risco muito grande de um genocídio acontecer. Olha, na época da descoberta do Brasil, os cientistas calculam que devia ter entre quatro e cinco milhões de indígenas na Amazônia. Hoje, essa população é de 300 mil pessoas. Esses indígenas desapareceram através de doenças de brancos, que praticamente os dizimaram”. Quem não viu o Roda-Viva, que foi ao ar na TV Cultura, vale a pena ver de novo.   

A DANÇA DAS CADEIRAS

Observo que as cadeiras da minha casa estão quase sempre vazias, diferentes de outrora, ocupadas por amigos e por aquelas que ainda chamamos de meninas. De tempos em tempos passamos um pano úmido nelas, embebido de álcool 70 graus e lysoform. Só mesmo para espantar bactérias porque pó quase não há. Observo que o sol começa a bater no parapeito das janelas da sala por volta de sete, sete e pouco. É quando levo pra lá as seis canecas com pezinhos de limão, plantados com todos cuidado e que vão crescendo a cada dia. O verde das folhas misturado ao sol, resulta numa coloração única. Olho para a estante na certeza que preciso de ânimo para tirar todos os livros e ir arrumando uma a uma, as estantes ligeiramente empoeiradas. Isso requer tempo e força. Misturados, tenho tido dificuldade de achar o que quero, como as cem fábulas fabulosas do Millôr que pretendo reler uma a uma nos intervalos de folga. Pulo da cama e observo que hoje a cozinha está impecavelmente arrumada, pronta para que eu comece a preparar o café da manhã. Os jogos americanos passaram por uma boa lavagem na máquina e alguns ficaram ligeiramente desbotados, resultado da água sanitária. Observo da janela que o pé de nêspera ganhou proporções inesperadas na jardineira e começa a ficar ligeiramente torto, procurando o céu e evitando o teto do vizinho de cima. Sei que um dia vou ter de tira-lo dali porque não tem cabimento um pé de nêspera na jardineira de um edifício, tão grande que chega a fazer sombra aqui dentro. Observo certas coisas dentro da minha casa que costumava não observar. Como um box com todos os discos de Baden Powell que, tão escondida, não ouço há anos. “Quando eu morrer/Me enterre na Lapinha/Calça, culote, paletó almofadinha…”

IN MORO WE TRUST

O Brasil viveu uma das sextas-feiras mais agitadas dos últimos tempos. 24 de abril de 2020 vai entrar para a história. Foi o dia em que o ministro da Justiça Sergio Moro, demissionário, soltou os cachorros ao vivo e em cores na televisão. Seis horas depois, foi a vez do presidente da República, Jair Bolsonaro, ir à forra. Soltou também os seus cachorros, principalmente desmentindo o que o agora ex-ministro falara no final da manhã. Vinte horas e trinta minutos, três horas e meia depois do pronunciamento do presidente, o Jornal Nacional rodou a sua vinheta e anunciou que tinha, com exclusividade, as provas de que Moro, o cada vez mais candidato da emissora às eleições do longínquo 2022, estava com a razão. “Pedimos as provas para Sergio Moro e ele enviou ao Jornal Nacional, com exclusividade!”, bradou o apresentador William Bonner. As provas eram mensagens trocadas entre Moro e a deputada federal Carla Zambelli, afilhada do ministro que estava de partida. A Globo livrou a cara de Moro de estar mentindo, mas curiosamente, não informou se aquelas mensagens foram checadas, se eram verdadeiras. In Moro We Trust! No ano passado, o site The Intercept Brasil divulgou mensagens trocadas pela turma de Curitiba, inclusive do então juiz Sergio Moro, que foram sempre contestadas pela mesma TV Globo. Eram “mensagens obtidas de forma ilícita por hackers criminosos”, dizia Moro no mesmo Jornal Nacional. Fica aqui a pergunta: por que a Globo acredita nas mensagens de Moro e não acredita nas mensagens do Intercept? Todos desconfiam, não é mesmo?

[foto Reprodução/TV Globo]  

A VARANDA

Sinto-me privilegiado por ter uma varanda, uma pequena varanda, numa hora dessas. É nela que tomo um pouquinho de sol de manhã, quando o sol dá as caras. A varanda tem uma rede vinda do Nordeste, tem dois vasos com plantas verdes e floridas, dependurados no teto. Um bebedouro para os beija-flores que aparecem cedinho, junto com o dia que vai clareando. Gosto da varanda nesse horário, silencioso em que até parece que as pessoas estão respeitando o confinamento. Tem uma pequena horta, que adoro. Numa jardineira, plantei sementes de tomate que germinaram, cresceram e já apontam as primeiras flores amarelas indicando que em breve teremos tomatinhos cereja sem agrotóxico. Na outra jardineira tem alecrim, que vive em plena harmonia com o manjericão. Na mesinha com pé de ferro, mais ervas: tomilho limão, sálvia, hortelã, que anda meio derrubado com folhas secas ou pequenas. Precisa se reabilitar urgentemente porque usamos muito hortelã nessas casa. Tem um pé de capim santo, um de arruda, um abacateiro com mais de metro, um pé de carambola que está difícil passar dos 30 centímetros. Tem dois pés de inhame que crescem a olhos vistos, quatro pés de gengibre, um vaso com várias mudas brotando que ainda não o que são. Semeei ameixa, caqui, mamão, pêssego. O que será que está brotando? Tem ainda um pé de cactus e um coqueirinho. Quem vê assim imagina um agronegócio, mas é um pequena varanda, tudo juntinho ao mesmo tempo agora. A varanda tem sido o meu quintal, a minha rua, o meu ar livre. O prazer de ler ali é muito grande. O cheiro dos tomateiros é cada vez mais acentuado quando bate o vento. Fechamos a varanda com janelas de vidro, decisão acertada que lembramos a cada dia. Molhava quando chovia e fazia muito frio no inverno. Agora estamos protegidos. E os outros?