DEZESSEIS

Fico assustado quando olho aqui da minha janela e vejo, a cada dia que passa, aumentando o número de pessoas que circulam. Dentro dos ônibus, à pé, de bicicleta. Quem são essas pessoas que, pelo visto, não têm medo do vírus? Dizem que são as pessoas dos serviços essenciais: enfermeiras, médicos, funcionários de farmácias, de supermercados, de postos de gasolina. O portão da garagem do meu prédio abre e fecha sem parar. Gente chegando, gente saindo. O comércio está fechado. Me contam que há avisos escritos em papel A4 colados nas portas de aço, anunciando o fechamento provisório. Ligo a televisão e vejo Madri completamente vazia, e também minha Florença. Vejo na capa do Libération uma fotografia quase em preto e branco, apenas um homem numa rua de Paris. Na capa da New Yorker a mesma coisa,  um desenho de Françoise Mouly mostra um homem e Nova York, creio eu. Um carteiro, talvez. O silêncio se instalou no meu bairro, a Lapa, enquanto ouço panelas no Facebook. O meu bairro é reacionário, fazia festas e mais festas na era do panelaço contra Dilma. Me mandaram pra Cuba, pra Venezuela e hoje se recolhem num silêncio constrangedor. Nesse silêncio, nossa voz ecoa no quarteirão todos os dias, oito e meia em ponto: Fora Bolsonaro! e Bolsonaro acabou!, inspirado naquele haitiano que ninguém nunca soube que é, como aquele chinês que parou tanques que se dirigiam à Praça da Paz Celestial. Sim, eu gostaria de poder descer e, no meio da rua, parar os ônibus que dirigem só Deus sabe pra onde. É uma ideia. 

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