DEZENOVE

Pela primeira vez não teve a procissão do fogaréu na cidade de Goiás. Isso marcou minha quinta-feira, eu viciado em clássicos do Jornalismo na televisão. Sim, coleciono clássicos do Jornalismo para, quem sabe, um dia escrever um livro chamado Dicionário Amoroso do Jornalismo. Rascunho já existe. As flores mais caras na véspera de finados, o preço salgado do bacalhau, aquele vivo da rodoviária e o repórter dizendo que não tem mais passagens pro Rio e pro Sul de Minas no feriadão, aquela imagem do panetone ainda em massa e o confeiteiro jogando nela as frutas secas, gente comprando ovos de Páscoa quebrados em cima da hora, sem contar o tal do “já é ano novo em Sidney!”. Pois é, “a festa não tem hora pra acabar!” E eu me pergunto: o que essa gente toda está fazendo na rua se o comércio fechou, a luz apagou e a festa acabou? Vejo na telinha filas pra regularizar o CPF e poder receber os 600 reais do governo. Fico pensando quanto será que ganha no final de um mês, aquele velhinho cujo comércio é um tamborete e um pedaço de madeira, e seu estoque é meia-dúzia de cigarros vindos do Paraguai, aqui vendidos picados. Fico pensando no seu colega ao lado que expõe na sua vitrine, um carrinho velho e enferrujado de supermercado, garrafas vazias de Dolly Guaraná e Chá Mate Leão. Não os vejo há vinte dias. Não devem estar lá na saída da Estação Ciência da CPTM, como sempre estiveram, todo final de tarde. Queria ser um drone para sobrevoar a cidade que me acolhe desde 1980, quando aqui cheguei e os novos baianos ainda te curtiam numa boa.

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