OS MEUS SAPATOS

Fui dormir com a piada na cabeça. Ela piscou no meu celular já quase no finalzinho da noite: “Os meus sapatos devem estar achando que eu morri.” Lembrei-me deles, arrumados na sapateira, devidamente engraxados. Gosto de engraxar sapatos, sempre gostei, desde menino quando, todo sábado, lustrava os do meu pai, clássicos, pretos, em troca de um punhadinho de cruzeiros que davam pra matinê do Cine Pathé. Fui dormir pensando em deixar a sapateira aberta o dia inteiro para espantar o mofo que se acumula nas solas se ficam muito tempo sem uso. Já são vinte e seis dias sem calçá-los e, como postou o Zé Simão, devem estar achando que eu morri. A agenda está cheia hoje. Daqui a pouco envio a crônica da semana pra Carta Capital, a de número 410. A direção me pediu para escolher cinquenta delas para compor um e-book que irão publicar. O primeiro foi The Book is on the Tablet e o segundo ainda não tem nome. Preciso de um tempo para fazer isso. Estou trabalhando em mais uma revisão do Almanaque Mauricio Kubrusly, que organizei no ano passado e que, se tudo der certo, sai no segundo semestre. Se houver segundo semestre. Que mais preciso fazer? Regar as plantas na varanda, tirar as folhinhas secas dos tomateiros e ver se os pés de inhame estão na hora da colheita. Tomar café sem suco de laranja porque o balaio de laranjas está vazio. Talvez improvise um suco de melão, que ainda temos. Ler os jornais, já li. Muita coisa sobre Rubem Fonseca pra ler. Tudo isso antes de começar a trabalhar para o Nocaute, o blog do Fernando Moraes. A Ilustrada deu a mesma manchete que demos ontem: A Grande Arte. No fim de semana vou organizar os livros dele e colocar numa ordem para reler, começando por Feliz Ano Novo, que recebi do meu primo Marco Aurélio que, esperto, comprou antes de ser proibido pela ditadura, empacotou e me enviou para onde eu estava, dez mil quilômetros daqui. Vai chegando sete horas, começo a ouvir os ônibus lá fora. As árvores me impedem de ver se estão cheios ou vazios. Um milagre: tem alguns minutos que liguei a televisão e ainda não ouvi a palavra coronavírus. Estão mostrando como será o tempo hoje em São Paulo e no Brasil inteiro. O inverno parece estar chegando. Na televisão e na janela, ainda fechada, do cômodo onde trabalho.  

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