OS ANOS HIPPIE

Durante a era hippie, na minha juventude, quantas e quantas vezes não pensei em abandonar a metrópole e ir viver no mato, sem rádio e sem noticia das terra civilizada? Curiosamente, eu tinha um enorme viveiro de periquitos, pintassilgos e curiós, que viviam ali enjaulados e, por incrível que pareça, não me incomodava com isso. Dava a eles alpiste, jiló, couve, ovo cozido e água fresca e achava que bastava, que estavam felizes ali, os curiós cantando, os periquitos piando. Os pardais viviam zambetando pelo quintal, livres, leves e soltos. Enfiavam o biquinho no arame do viveiro pra furtar alpiste e no dia de ovo quente, faziam a festa. Comiam e saiam voando por ai, como eu queria. Os tempos eram outros: “Eles passarão, eu passarinho”. Era um tempo em que Mario Quintana morava num hotel no centro de Porto Alegre e vivia chavecando loiras bonitas. Era um tempo em que Garrincha encantava o Maracanã, Didi marcava gols de folha seca e Pelé driblava um, dois, três. Hoje as maritacas começaram cedo a algazarra na frondosa árvore do jardim do meu prédio. Livres, leves e soltas, elas comem frutinhas e vão embora porque a cidade é cada vez mais delas. Passarinhos urbanos, como aquele velho disco da Joyce. Eles passarão e eu passarinho, aqui dentro de casa querendo voar, comendo semente de girassol,  jiló à milanesa, couve desfiadinha, ovo cozido com maionese light e bebendo água São Lourenço com gás. 

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