O SOM AO REDOR

Não conheço o vizinho de cima nem o de baixo, conheço o que mora em frente ao meu apartamento, no mesmo andar. E só. Nesse confinamento, ouço panelas de tempos em tempos, não sei de onde vem o grito de Fora Bolsonaro. Não são muitos, são poucos. Muitos, eram na época da Dilma, quando ela começava a falar na televisão. Lá longe, o Fora Bolsonaro soa como aquele Boa noite, presidente Lula! Nem os funcionários do prédio, vejo mais. Deixam os jornais em cima do capacho todos os dias, invisíveis e silenciosos. De vez e quando o interfone toca, é quando ouço a voz do Sandro, do Bahia, do Manoel avisando que chegou alguma coisa pra gente. Vinho, supermercado, boleto ou o livrinho infantil bilingue da Folha que estou colecionando para o Raul, meu neto. Não sei que músicas meus vizinhos ouvem, que livros leem, que séries assistem no Netflix. Não ouço barulho de aspirador de pó, não ouço mais as diaristas chegando cedo e batendo um papo rápido com os porteiros. Não ouço a algazarra das crianças no parquinho nas manhãs de sábado aqui na frente, nem a gritaria na piscina nas manhãs de domingo, lá no fundo. O meu prédio parece um prédio fantasma. Cultivo minha horta na varanda e não sei se nas outras varandas, os meus vizinhos cultivam tomate, hortelã, alecrim, manjericão, inhame, como eu. Não dá pra ver, daqui de dentro, se existem redes nordestinas ou orquídeas dependuradas na parede. Nos fins de semana, costumo sentir o cheiro de carne. Não é churrasco, talvez carne de panela ou rosbife. Ainda bem que não perdi o olfato. 

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