URUBU

Quando eu era criança, havia um matadouro dentro da cidade onde nasci. Sempre que íamos visitar o meu avô, em Santa Tereza, a gente passava por ele. De longe, sentíamos um mau cheiro que fazia meu pai fechar o vidro do Jeep girando a manivela porque ainda ainda não havia vidro elétrico. Passava, ele abria novamente o vidro, mas mesmo assim o “fedô” – como chamávamos – ainda persistia por alguns minutos. Eu nunca gostei de passar na porta do Matadouro Modelo, que todos chamam de Perrela. Imaginava bois e vacas sendo sacrificadas ali dentro, carne para um lado, ossos enormes para o outro, restos de gordura no chão, pele e sangue. Aquilo era a minha imaginação. Diziam que os animais eram abatidos com uma cacetada na cabeça, que ficavam tremendo, agonizando por um longo período, até o coração parar e os funcionários entrar em ação para destrinchar aquele animal enorme. Sentia que estávamos chegando perto do matadouro quando via os primeiros urubus voando no céu azul de Belo Horizonte. No telhado daquele galpão enorme e fúnebre, os urubus saltitavam meio desajeitados disputando um pedaço de muxiba, que é como chamávamos os restos de carne. Eram muitos e viviam por ali. O urubu sempre me impressionou. Meu pai dizia que onde tinha urubu voando é porque tinha carniça por perto. Era mesmo. Na estrada, bastava avistar um urubu que, daqui a pouco, enxergávamos o cachorro morto no acostamento. Só me simpatizei um pouco com ele quando Tom Jobim lançou um disco com o seu nome. Fiquei impressionado, mas sabia da paixão de Tom pelas aves: sabiá laranjeira, cardeal, azulão, perdiz e até aquela com nomes que só ele conhecia. Tururim, inambu-de-coroa-preta, jacupiranga, mutua-do-norte, mergulhão, curicaca, essas aves brasileiras. Tom era capaz de reconhecer todos os urubus que eu, menino, achava que era um só. Urubu-rei, urubu-de-cabeça-amarela, urubu-da-mata, urubu-de-cabeça-vermelha. Depois de muito tempo sem ver um urubu aqui na maior cidade da América do Sul, pude revê-los anos atrás em Belém do Pará, onde fotografei um em pleno voo. Sempre tive um certo medo de urubu. E agora ele voltou. 

[foto Alberto Villas]

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