HOME OFFICE

Nesses tempos de home office, captamos na casa do ex-embaixador José Botafogo, dois volumes do livro “Árvores Brasileiras”, um manual de identificação e cultura de plantas arbóreas do Brasil, de Harri Lorenzi. 

[foto Reprodução/TV Globo]

HOJE EU NÃO SAIO NÃO

Hoje eu não saio não
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
Lá no boteco, não
Telecoteco
No trio elétrico, não
Teatro, não
Não vou no esquema não
Nem no cinema, não
Em Ipanema, não
No circo, não
Hoje eu não saio não
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
Na padaria, não
Na academia, não
Periferia, não
No centro, não
No casamento, não
No lançamento, não
No movimento, não
Na praia, não
Hoje eu não saio não
Hoje eu vou ficar em casa, neném
Hoje eu não saio não
Eu quero ver televisão
Hoje eu não saio não
Não troco meu sofá por nada, meu bem
Hoje eu não saio não
Não quero ver a multidão
No restaurante, não
Roda gigante, não
No baile funk, não
No parque, não
Não vou na Lapa não
Na batucada, não
Na passeata, não
Nem no portão

[Hoje eu não saio não/Arnaldo Antunes-Marcelo Jeneci-Betão-Chico Salem]

O SOM AO REDOR

Não conheço o vizinho de cima nem o de baixo, conheço o que mora em frente ao meu apartamento, no mesmo andar. E só. Nesse confinamento, ouço panelas de tempos em tempos, não sei de onde vem o grito de Fora Bolsonaro. Não são muitos, são poucos. Muitos, eram na época da Dilma, quando ela começava a falar na televisão. Lá longe, o Fora Bolsonaro soa como aquele Boa noite, presidente Lula! Nem os funcionários do prédio, vejo mais. Deixam os jornais em cima do capacho todos os dias, invisíveis e silenciosos. De vez e quando o interfone toca, é quando ouço a voz do Sandro, do Bahia, do Manoel avisando que chegou alguma coisa pra gente. Vinho, supermercado, boleto ou o livrinho infantil bilingue da Folha que estou colecionando para o Raul, meu neto. Não sei que músicas meus vizinhos ouvem, que livros leem, que séries assistem no Netflix. Não ouço barulho de aspirador de pó, não ouço mais as diaristas chegando cedo e batendo um papo rápido com os porteiros. Não ouço a algazarra das crianças no parquinho nas manhãs de sábado aqui na frente, nem a gritaria na piscina nas manhãs de domingo, lá no fundo. O meu prédio parece um prédio fantasma. Cultivo minha horta na varanda e não sei se nas outras varandas, os meus vizinhos cultivam tomate, hortelã, alecrim, manjericão, inhame, como eu. Não dá pra ver, daqui de dentro, se existem redes nordestinas ou orquídeas dependuradas na parede. Nos fins de semana, costumo sentir o cheiro de carne. Não é churrasco, talvez carne de panela ou rosbife. Ainda bem que não perdi o olfato. 

CASA DA MÃE JOANA

Um tal de Marcão do Povo é o que há de pior no Jornalismo, com perdão de usar a palavra Jornalismo aqui. Afastado da Record TV por racismo, Marcão foi parar no SBT com um ótimo salário, escalado para apresentar o bizarro Primeiro Impacto, desses telejornais (com perdão da palavra telejornal) que saem da cabeça do dono, Silvio Santos, depois de passar uma temporada em Miami. A repercussão foi grande quando Marcão do Povo, há alguns dias, sugeriu ao presidente Bolsonaro a criação de campos de concentração para isolar os contaminados pelo coronavírus. O dono do SBT suspendeu Marcão por alguns dias, esperando a poeira baixar. Os jornalistas da casa fizeram um abaixo assinado exigindo a demissão do apresentador. Passaram-se alguns dias e ficamos sabendo que segunda-feira (27), o tal Marcão do Povo volta ao ar, orientado para não fazer comentários, fazer o papel de apresentador apenas. No SBT a coisa funciona assim.

[foto Reprodução/SBT]

HOME OFFICE

Nesses tempos de home office, captamos na estante do ex-embaixador Roberto Abdenur, durante um depoimento ao Jornal Nacional, o livro “Flash Gordon – Os Proscritos e os Tiranos de Mongo”, um clássico das histórias em quadrinhos. 

[foto Reprodução/TV Globo]

FRITURA À MODA DO BISPO

São muitos os programas de receitas culinárias, mas na noite de quinta-feira (23), assistimos no horário nobre uma receita muito particular: Fritura à moda do bispo. No jargão jornalístico, costumamos chamar de REC uma matéria recomendada pela direção da casa. O Jornal da Record, a do bispo, exibiu uma reportagem com um único intuito, fritar o ministro da Economia, Paulo Guedes. O motivo encontrado foi o plano econômico Pró-Brasil, pilotado pelo chefe da Casa Civil, Braga Neto, forte candidato a golpista. Guedes foi fritado em casa frase do off, em cada imagem que entrava no ar. Deu tudo errado com o Guedes no ministério era o mote da reportagem, mostrando cada ato que deu errado, cada vacilada do Posto Ipiranga. Gostaríamos de saber o que achou o público do JR, sempre muito fiel ao tal Jair Bolsonaro. 

[fotos Reprodução/RecordTV]

NAU SEM RUMO

Aqui dentro da minha casa fico sabendo que lá fora o circo está pegando fogo, o mar está revolto, um iceberg à vista e é o capitão quem dá ordens para a orquestra continuar tocando. Separo e vou ouvindo aos poucos todos os discos de Moraes Moreira até chegar aquele da capa colorida que diz: Lá vem o Brasil descendo a ladeira. Durmo como uma pedra, ao contrário de muitos amigos que custam a pegar no sono. Mas acordo todos os dias sobressaltado com as notícias. O que teria acontecido durante a madrugada? Quantos mais morreram de coronavírus? Quem foi demitido? Como foi a noite em Brasília? Quanto o PIB vai cair? Quanto o dólar vai subir? E pergunto aos botões do meu pijama: Quantos dias ainda vamos viver até nos livrarmos dessas duas pragas? O Covid-19 e o Jair ex-17.

QUE QUARENTENA?

No final da tarde de quarta-feira (22), cinco dias depois de tomar posse, o ministro da Saúde, Nelson Teich, deu as caras na televisão para uma coletiva. E chegou para avisar que o governo tem um plano para flexibilizar, ordenadamente, a quarentena. Os jornalistas, preocupados em arrancar umas aspas para o seu jornal, para o seu canal de televisão, simplesmente se esqueceram de perguntar: “Ministro, qual quarentena? O presidente da República nunca defendeu isolamento social, nunca defendeu quarentena, muito pelo contrário, sempre saiu às ruas passando a mão no nariz, cumprimentando as pessoas, dando tapinha nas costas e convidando à todos para voltar ao trabalho, deixar de lado essa bobagem de quarentena que só atrapalha a economia brasileira. Qual quarentena, ministro, o senhor está falando?” Os jornalistas parecem estar com medo da cara esquisita do novo ministro da Saúde ou da cara do general Braga Neto, o aprendiz de golpista. Aproveitando a ocasião, copidescamos a manchete do globo.com

O APRENDIZ

Gente que só sabia fazer macarrão com molho de tomate pronto está aprendendo a fazer um carbonara, gente que só sabia fritar ovo está aprendendo a fazer omelete de cogumelos, gente que só sabia fazer suco de poupa está aprendendo a fazer suco de caju com limão e gengibre, gente que nunca havia colocado a mão num ferro está aprendendo a passar roupa, gente que nunca tinha lavado uma cueca está aprendendo onde coloca o sabão em pó e onde coloca o Fofo na máquina, gente que nunca tinha passado uma vassoura no chão está descobrindo  as maravilhas de um aspirador de pó, tem gente aprendendo que água sanitária mancha a roupa, que é preciso deixar os panos de prato de molho no sabão, que roupa lavada dentro da máquina, se ficar muito tempo pega cheiro de mofo. Tem gente que já sabe que o lava-louças chama Ypê, que existe um antibactericida chamado Mr. Músculo, que o limpa-móveis chama Polyflor e que o limpa-vidros chama Veja, como a revista. Tem gente que só agora percebeu que a pá de lixo é de plástico, bem como o cabo da vassoura, que não é mais de madeira. 

OS MORTOS DO CORONAVÍRUS

Sinceramente, achamos bizarra a comparação feita na noite de terça-feira (22), por Willian Bonner na abertura do Jornal Nacional. Para dar uma ideia do número de pessoas que o coronavírus já matou, o apresentador disse que seria como se a “população da cidade de Palhoça inteira tivesse morrido”. A comparação está certa, Palhoça, uma cidade de Santa Catarina, tem mais de 170 mil habitantes, número parecido com o dos mortos pelo vírus. Só que a comparação não chamou a atenção, ainda mais pela cidade se chamar Palhoça. Quem não sabe onde fica e quantos habitantes tem, ficou a impressão de que o coronavírus não matou assim tanta gente. O número de mortos em si, é muito mais impressionante que o número de habitantes de Palhoça.

[foto Reprodução/TV Globo]

BLÁ BLÁ BLÁ

Trabalhando em casa, a televisão passa o dia ligado nos canais à cabo, focados na informação. São telejornais atrás de telejornais, comentaristas políticos também uns atrás dos outros. Eles costuram o noticiário, dando pitacos depois de conversar com suas fontes. Muitos erros e acertos. O que reina nessas análises, tenho percebido, é o tal do “tudo pode acontecer”. Num país onde a política é um balaio de gatos, os comentaristas vão analisando os fatos, também uns atrás dos outros. Vou percebendo que se acertam, acertam, mas se erram, tudo vai ficando por isso mesmo. “O dólar deve cair um pouco” e o dólar sobe. “A Câmara deve votar hoje” e não vota. “O clima entre o presidente e o Congresso deve melhorar” e piora. A gente vai ouvindo, ouvindo, e muitas vezes esses comentários mais parecem apenas ruminação. Por isso tenho prestado atenção no que o Otávio Guedes diz na GloboNews. É mais pé no chão. Preste atenção.  

VIAJANDO NA MAIONESE

Na sala da minha casa tem um móvel antigo, fino e comprido, com seis gavetas enormes, datado do início do século passado. Daqueles com engrenagem que, para abrir uma gaveta, é preciso abrir a primeira. Dentro dessas gavetas, durante muito tempo, guardamos os guias de viagem. Alguns ainda novos, outros meio estropiados, gavetas dos sonhos. Com o tempo, eles foram ficando abandonados, inúteis. Com o advento da Internet, perderam um pouco o sentido, já que temos todas as informações atualizadas, tipo a Notre Dame está fechada há um ano porque parte virou cinzas. Nunca mais esses guias viajaram conosco, pelo peso, pela inutilidade. Na última viagem que fizemos com um deles, não saiu da mala. As coleções da Viagem e Turismo e da Próxima Viagem foram passadas adiante. As prateleiras com a Geo e a National Geographic continuam lá, pela atualidade científica e de comportamento. Jamais serão desfeitas. Como a coleção da Ulysse, encadernada. Para esse ano, não temos planos de viagem. A vontade de ver o mar, nossa grande paixão, é muito grande, mas não sei se veremos. As caixinhas com nossas fotografias dos lugares por onde andamos estão organizadíssimas com essa quarentena. Se não tivessem, seria um bom motivo para arrumá-las. Penso numa velha canção de Gilberto Gil, “Vamos Fugir”, bem como na “Fuga número 2 dos Mutantes”, com Rita Lee, Arnaldo e Serginho Dias Baptista. Penso numa outra velha canção do Mestre Pastinha que diz “Eu já vivo tão cansado/De viver aqui na Terra/Minha mãe eu vou pra Lua/Eu mais a minha muié/Vou fazer um ranchinho/Todo feito de sapé/Amanhã às sete horas/Nós vamos tomar café”. E volto a dormir mais um pouco.