A LINHA

Quisera eu ter a paciência das bordadeiras do Nordeste, aquelas que sentam nas varandas de suas casas e passam o dia a bordar, enfiando linha e agulha no linho. Com uma garrafa de café ao lado, no cantinho, de tempos em tempos dão uma goladinha. Ficam ali de sol a sol num papo sem fim, contando histórias dos antepassados, o avô sertanejo, o tio-avô que diziam ter sido do bando de Lampião e Maria Bonita. Não precisam mais olhar para o trabalho que fazem, craques que são. Os bordados vão saindo, formando motivos com perfeição. Quisera eu ter a calma da minha vó, que colocava uma almofadinha no parapeito da janela da sua casa simples, almofadinha feita pelo meu avô, incomodado com aquele cotovelo magro machucando em cima do cimento. Ela via os automóveis passando, as pessoas, conhecidas ou não. Passava as manhãs ali ouvindo ‘bom dia, dona Zizinha, bom dia, bom dia”, enquanto o meu avô socorria o arroz queimando no fogão. A paciência dele era amor, puro e verdadeiro, que durou bem mais que cinquenta anos.Quisera eu ter a paciência daquele casal belga que se instalou numa luxuosa barraca ao lado da nossa num camping em Toledo, na Espanha. Acordavam, faziam alongamento, ele e ela, e passavam horas no café da manhã conversando, sem pressa de ir ao mar se purificar. Tinham um pequeno aparelho de som, um frigobar, um fogãozinho à gás, uma torradeira, uma frigideira onde faziam ovos mexidos com jamon. Nosso café da manhã era mais pobrezinho, mas também gostoso. Pão integral, geléia de laranja amarga e Nescafé. O belga tinha assim uma aparência de George Harrison e ela, pensando bem hoje, uma Marisa Monte. O Jeep deles era poderoso e foi através dele que soubemos que eram da Bélgica, pela placa miudinha, branca com escrito em vermelho. Ainda não havia a Comunidade Européia que unificou o dinheiro e as placas dos automóveis. Quisera eu ter liberdade que tinham. Um dia, bem cedinho quando acordamos, a vaga ao lado da nossa barraca estava vazia, eles tinham pegado a estrada. Não me pergunte rumo a que lugar desse planeta. Quem sabe, rumo a uma liberdade tão preciosa, tão desejada.

[ilustração: trabalho em linha de Bel Barcellos]

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