NINGUÉM É SUPER-HOMEM

Todo mundo sente aquele princípio de gripe, o corpo meio mole, olho ardendo, nariz escorrendo e uma enxurrada de atchim. Todo mundo sente um pouco de dor nas costas, uma dorzinha de cabeça chata, uma tosse enjoada, uma vontade de só ficar na cama. Mas agora é diferente. No primeiro sinal de gripe, de dor de cabeça, de tosse, vem o pânico. XI, o coronavírus chegou. Os pacotes de lenço Yes multiplicaram por dez dentro do armarinho do banheiro, o termômetro digital está ali de plantão em cima do criado-mudo e o envelope de Advil, no bolso esquerdo do moletom, porque agora quem fica em casa usa confortáveis moletons, mesmo que quase puídos, com o elástico meio bambo e uma cor fora da moda. O mundo agora está dividido em dois. Aqueles que estão em casa, lavando as mãos durante quase um minuto com água e sabão, usando máscara para colocar o lixo do lado de fora, tomando banho com as Havaianas que deram sete passos no hall do andar para colocar o lixo no galão, espirrando no cotovelo e esperando o Doria na televisão ampliando a quarentena até junho. E aqueles que estão cagando e andando pro vírus, os super-homens que acreditam piamente que nunca vão morrer, nem mesmo quando um asteroide atravessar a atmosfera e cair no oceano trazendo uma força imbatível. Aqueles que acreditam que o Batman e a Mulher-Maravilha jamais fugirão dessa ameaça correndo pelas ruas da cidade. Aqui, quietinho no meu canto, continuo lutando pela hashtag fique em casa.

[ilustração Cristina Spano]

 

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