NÃO SE MORRE MAIS, CAMBADA!

Dei pra arrumar minhas coisas. Coisas que estavam pra arrumar há dias, semanas, meses, anos. Livros, discos, gavetas, caixinhas. Cada meia hora que tenho nesse tal de home office, vou colocando uma coisa aqui, outra ali, agora higienizando tudo. Já gastei um litro de álcool e um tubo daqueles grandes de lustra-móveis. Sem contar umas três buchas, uma dúzia de paninhos e um espanador. Quanto pó acumulado nesse tempo todo, pó que não me chamava tanto a atenção porque as minhas coisas andam sempre nos lugares. De vez em quando paro e fico sentado meia hora. Isso quando me surpreendo com uma coisa que eu tinha e nem me lembrava mais. Fico aqui me perguntando o que aquele selo da inauguração de Brasília estava fazendo dentro do livro 84 Charing Cross Road, de Helene Hanff, já meio amarelado. E aquelas anotações ilegíveis numa velha lauda da Folha, amarelada, descansando dentro do livro Solte os Cachorros, da Adélia Prado? Passando uma flanela em cada disco de vinil, de tempos em tempos coloco um na vitrola. Hoje foi o dia de ouvir inteirinho o primeiro disco do Tom Zé, lá do final dos anos 1960. De repente, ele dá um grito antes da banda começar a tocar uma canção chamada Sabor de Burrice: “Não se morre mais, cambada!”

[foto/Reprodução The New Yorker]

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