AMANHÃ

Não sei se adianta ouvir uma, duas, três vezes Evinha cantando em seu disco francês que amanhã será um lindo dia da mais louca alegria que se possa imaginar. Duvido que amanhã eu vá caminhar pela Rua Faustolo até a Fabrique para comer um pain aux raisins, tomar um suco de tangerina e depois um expresso bem tirado, adoçado com açúcar mascavo. Voltar pelo mesmo caminho, passar pela feira da Aurélia, sentir o cheiro do pastel, comprar um pacotinho estufado de tapioca fresca, couve já picada, pepino japonês, língua fatiada, duas postas de cação e mudinhas de tomilho limão, coisas que não encontro no supermercado. Há mais de cinquenta dias não ouço o feirante fanho gozando os palmeirenses, o feirante palmeirense retrucando, lembrando  um jogo de mil novecentos e setenta e seis. Me pergunto se ainda está lá o velhinho com sua placa desbotada conserta-se fogão e um outro, na esquina, descascando e empacotando mandioca, a melhor da região. Evinha rola no Spotify garantindo que amanhã, redobrada a força pra cima que não cessa, há de vingar. Da janela lateral vejo o dia amanhecer, um silêncio sepulcral, nem mesmo o mecanismo da porta da garagem do meu prédio, abrindo e fechando, ouço mais. A televisão está desligada porque hoje é sábado. Por enquanto, nem parece que a Terra parou. 

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