O INVERNO

Quase sessenta dias que não calço um sapato, que não coloco um relógio no pulso, que não ponho minha mochila nas costas ou aperto o botão T do elevador. Quase sessenta dias que não vejo o Sandro, porteiro do meu prédio, aquele que separa minhas revistas e me entrega na mão o pacote cada vez que passo por lá, ao sair para o trabalho. Quase sessenta dias que não paro na calçada esperando o sinal ficar verde para os pedestres, que não vejo os cachorros do meu bairro, aqueles de raça e os vira-latas vivendo em perfeita harmonia. Quase sessenta dias que não vou no japonês comprar pilhas, lâmpadas, bricolagens. Tornei-me familiar da Julia Duailibi à partir das seis horas da manhã e da dupla Aline e Cecilia à partir das nove. São elas que me dão as primeiras notícias da cidade, infelizmente com muitas pessoas andando nas ruas. Trabalho as notícias para o Nocaute, faço pesquisas para o meu novo livro, corrijo frases e faço legendas para o Almanaque Mauricio Kubrusly, leio agora a vida de Van Gogh depois do amor nos tempos do cólera, finalmente. Tenho uma pilha de livros pra ler. O próximo será O Romance da Minha Vida, do Leonardo Padura, depois de me deliciar com as mais de mil páginas sobre a vida do pintor que cortou suas orelhas. Hoje é terça e vou calçar meias porque já é inverno anuncia na previsão do tempo na televisão e o vento frio que entra pela fresta da janela do cômodo onde estou pode me trazer um resfriado. Espero que ele não seja muito rigoroso e que eu possa ouvir novamente George Harrison cantando Here Comes  the Sun. 

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