LEMBRANÇAS DE UM CONFINAMENTO NO INTERIOR DA TURQUIA

Estava folheando o livro Une Odeur de Goyave, de Gabriel García Márquez, decidido a comprar, quando a Fnac da Rue de Rennes tremeu depois de um forte estrondo. Os relógios marcavam cinco e vinte da tarde naquele 17 de setembro de 1986. Todos pararam perplexos, olharam uns para os outros, sem entender absolutamente nada. Perdi a graça de folhear o livro, parei. Procuramos a saída e ao abrir a porta corta-fogo, já deu pra sentir um leve cheiro de fumaça.

Incêndio?

Quando coloquei os pés na calçada, já vi o movimento de pessoas correndo, vans vermelhas estacionando em cima da calçada e salva-vidas saltando delas. Vi policiais fechando a rua, carros dando meia-volta, os primeiros fotógrafos.

Um grupo terrorista iraquiano que exigia a libertação de Anis Naccache, Georges Ibrahim Abdalla e Varadian Garbi, jogou para os ares a vitrine da Tati, uma loja de artigos populares que se reinventou na Rue de Rennes, uma rua meio chique. No andar acima da Tati, ficava a redação da revista Le Point, de centro, com um pé na direita.

O cheiro agora era de pólvora e borracha queimada. As vans saíram em disparada, cheguei um pouco mais perto só pra ver e lá estavam os estilhaços de vitrine, manequins despedaçados e espirros de sangue nas paredes.

Voltei pro hotel e fiquei esperando o telejornal das oito que anunciou na escada o número de mortos: sete! O apresentador Patrick Poivre D’Arvor chamou a coletiva do presidente da República que pediu aos moradores para não saírem às ruas porque a inteligência já havia alertado para novos atentados.

Nada de andar de metrô, ônibus, nada de passear nos parques, ir a museus, sequer tomar uma Perrier com limão siciliano num café da cidade.

Eu estava ali para passar vinte dias em Paris e aquele era apenas o segundo. Vou fugir daqui, pensei. Vários lugares passaram por minha cabeça e acabei optando por Istambul, cidade que sonhava voltar um dia desde aquele verão de mil novecentos e setenta e cinco.

Foi fácil conseguir uma passagem e, no dia seguinte levantei voo para longe de Paris. Cheguei em Istambul no final da tarde e no início da noite já estava instalado num hotel bem barato no centro velho da cidade, muito mudada desde os meus tempos de hippie.

Da janela fechada, vinha um barulho surdo de sirenes, que foram aumentando e invadindo o quarto. Vi que eram muitas ambulâncias, umas dez, umas atrás das outras. Elas desviavam dos carros em alta velocidade, deixando a impressão que iam tombar.

Fui dormir com aquele zunzunzun, não ousei ir até a sala de televisão no térreo do hotel, eu que não sabia o que era boa noite em turco.

Acordei e soube, no café da manhã, ao ler o Figaro dependurado num pedaço de pau, que vinte e sete pessoas tinham morrido no ataque a uma mesquita bem perto do hotel onde estava.

É no mundo inteiro? Pensei.

No saguão havia um grande mapa da Turquia na parede. Olhei, olhei e resolvi escolher uma cidadezinha do interior para me refugiar. Daqueles nomes estranhos, só conhecia Istambul e Ancara.

Fui caminhando até a estação rodoviária, um galpão empoeirado e cheio de ônibus caindo aos pedaços. Comprei uma passagem para a cidade de Kaymakly, entrei no ônibus e pedi que Alá me protegesse.

Cheguei na região da Capadócia, onde ficava a minha cidade, ainda não eram seis horas da manhã, mas já havia sol. Ainda bem que hotel é uma palavra que todos entendem. Seja na Turquia ou no Gabão. No Zâmbia ou Afeganistão. Um motorista me deixou na porta de uma pensão pequena, simples, meio sombria. Era o que tinha para o momento.

Lembro-me de um quarto com uma janela minúscula, o Alcorão aberto. Foi ali naqueles poucos metros quadrados, forrado de um tapete surrado, que passei quinze dias, praticamente confinado. Saia todos os dias para dar uma volta pela cidade e parecia estar dentro de um filme, como uma rosa púrpura no Cairo.

O mercado era a grande atração e eu gostava de ficar ali ouvindo o burburinho de vendedores de berinjela, pimentão, pepinos, romã e muitas frutas secas. Cabras, bodes, carneiros e ovelhas circulavam pelas ruas de uma cidade marrom, iluminada pelos panos coloridos que os moradores usavam.

A única pessoa que consegui trocar algumas palavras foi o dono do hotel, que se interessou pelo Brasil de Pelé, Tostão, Gerson e Rivelino. Era uma conversa de índio. Mostrei a ele fotos da minha família e ele de seus antepassados.

No dia em que parti, deixei com ele de presente, um postal da Cidade Maravilhosa e uma fita K-7 com o RPM cantando Olhar 43, Guerra Fria, Estação do Inferno, A Cruz e a Espada, Revoluções por Minuto. Nunca soube se ele gostou da voz de Paulo Ricardo cantando: Havia um tempo em que eu vivia/Um sentimento quase infantil/Havia o medo e a timidez/Todo um lado que você nunca viu.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital em 22.05.20]

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