EU PASSARINHO

Sessenta e três dias depois, sonho muito. Picado, acordando no meio da madrugada. Não sei se sonhei ou delirei ao lembrar das andorinhas da Igreja Nossa Senhora do Carmo, piando em voos rasantes entre fiéis e infiéis. A Igreja era ainda a velha, teto com ripas de madeiras e elas iam e vinham enfiando-se em buraquinhos certos, seus ninhos, diziam. Eu cochilava sem entender aquele latim ruim que tinha, maravilhado com a liberdade das andorinhas sem entender direito porque elas se abrigavam na Igreja Nossa Senhora do Carmo, assanhando-se na hora da missa. Eram ariscas as andorinhas e, acredito eu, nunca uma foram em cana como os meus passarinhos, coitados. De vez em quando, a caminho de Ouro Preto, via um bando no céu, libertas da Igreja, quae sera tamen. Chegavam a fazer uma mancha negra no céu, numa coreografia sem ensaio, mas perfeita. Entre essas paredes, lembrei-me de uma marchinha de carnaval, não sei se sonhando ou não: Vem moreninha, vem tentação/Não andes assim tão sozinha/Que uma andorinha/Não faz verão/Dizem morena, que teu olhar/Tem correntes de luz que faz cegar/O povo anda dizendo, que essa luz do teu olhar/A Light vai mandar cortar. E eu sonhava acordado com a moreninha que morava no andar debaixo da minha casa.

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