AO VIVO

Há dois meses meses não vejo um japonês ao vivo. Um negro, uma criança, uma diarista, a menina do Bradesco Prime com o colete Posso te ajudar?, a caixa da padaria Palácio dos Pães, um motorista de Uber, de ônibus, de van. Há dois meses não vejo um cachorro ao vivo e em cores. Não vejo os buracos nas calçadas, guimbas de cigarro, idosos varrendo os alpendres dos sobradinhos da Lapa, os garis recolhendo folhas do outono na Praça Marechal. Há dois meses não vejo um cobrador de ônibus cochilando, uma mocinha aflita gritando espera, motorista, que eu vou descer! Há dois meses não vejo as carambolas do sacolão da Lapa, o Severino na banca de jornal, o Sandro na portaria do meu prédio, os postits coloridos na vitrine da Lapapel, os croissants na Fabrique, os carrinhos de frutas nas esquinas de Higienópolis. Nunca mais vi um pombo ciscando farelo na porta do Bar e Lanches Souza, nunca mais vi um morador de rua recolhendo seus panos debaixo do viaduto Presidente João Goulart. Há dois meses não vejo uma escada rolante, uma revista Minha Novela dependurada na banca, um livro na livraria, uma Fanta Manga no Superville, uma camionete amarela da DHL, uma árvore caída depois do vendaval, um motorista falando ao celular, um farol quebrado, um engarrafamento, a maquininha de senha do laboratório de análises clínicas. Há mais de dois meses não vejo minhas filhas, meu filho, minha neta, meu neto, meus irmãos, meus sobrinhos, minhas amigas, meus amigos, meu afilhado, meu neto. Gente, onde está o meu país?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s