BOM DIA, TRISTEZA

Chega ao fim uma das revistas mais importantes de literatura do mundo, a francesa Magazine Littéraire. Nascida em 1966, dois anos antes do histórico Maio 68, a Magazine Littéraire passou por várias fases nos últimos anos. Virou LE Magazine Littéraire e, há dois anos transformou-se totalmente, virando Le Nouveau Magazine Littéraire, passando seu foco também à política e ao comportamento, mas  o forte continuou sendo a literatura. Através dos anos, seus dossiês de 20 páginas transformaram em verdadeira enciclopédias de Literatura. Passeou por todos os estilos, do romance a poesia, da ficção científica aos quadrinhos, e por todos os continentes. Neste junho de 2020, a Magazine Littéraire juntou-se à revista Lire, transformando em Lire Le Magazine Littéraire. A Lire, que nasceu nos anos 1970 como uma revista que apenas reproduzia um capítulo condensado de livros da atualidade, aos poucos, foi se transformando numa revista mensal de literatura. Restou pouco da Magazine Littéraire dentro da Lire, apenas o vazio e a falta que ela vai fazer. 

[foto Reprodução]

VI E GOSTEI

Muito boa a participação do ex-jogador e comentarista Walter Casagrande no programa Papo de Segunda, exibido segunda-feira (29) no GNT. Contundentes suas declarações sobre drogas, futebol e política. Sem esconder nada. Fabio Porchat, Emicida, João Vicente e Francisco Bosco deixaram Casão falar. Muito, sem cortes. Vale a pena ver de novo!

[foto Reprodução/GNT]

DERRUBANDO VERDADES

Já comentei o assunto aqui, mas volto a ele porque virou pandemia. Reportagens são feitas diariamente mostrando erros, falta de estrutura, falcatruas, todas elas com detalhes, provas e depoimentos contundentes. Falta respirador no hospital Tal. Faltam médicos na cidade Tal. A compra de equipamentos foi ilegal no hospital Tal. O rombo foi de milhões na administração Tal. Mas como é preciso ouvir todos os envolvidos, depois da matéria ir ao ar, vem a famosa nota pé. O hospital Tal informa que o número de respiradores está atendendo cem por cento dos pacientes e que não há falta dele. O hospital Tal informa que tantos médicos foram contratados e que em momento algum paciente deixou de ser tratado por falta de profissionais. O hospital Tal informa que a compra de aparelhos foi feita dentro da lei e todas as contas foram prestadas. A administração do prefeito Tal informa que as contas foram todas prestadas e estão regularizadas. E vamos para a reportagem seguinte. O telespectador fica sem saber. Todas as informações dadas e comprovadas nas reportagens foram, logo em seguida, desconstruídas e desmentidas pelos envolvidos. Alguém está mentindo. 

[foto Reprodução/TV Globo]

OS BICHOS

Ouvi dizer que os gatos estão chateados, estressados com os donos dentro de casa vinte e quatro horas. Não gostam disso, consideram que a casa é deles e precisam de momentos de solidão e soneca. Além de uma boa investigação pelos cantos da casa, sem o olhar atento e desconfiado dos donos. Já os cachorros estão felizes da vida, abanando o rabo, o sorriso deles. Gostam de companhia e sempre fazem cara de muxoxo quando vão passar uma tarde a sós. Acabou isso. Estão adorando essa pandemia, esse mimo o dia todo. Os peixes não estão nem ai, nem sentiram a chegada do coronavírus e continuam na deles. Pombos de rua continuam nas ruas, sentiram apenas o impacto da falta de farelo de pão nas portas dos bares. Os ratos, na mesma situação. O lixo dos restaurantes, prato cheio da madrugada, mirraram. Os pardais, ah os pardais são os pardais. Não se apertam. Se pudesse fazer uma escolha, queria eu ser um gato como este que fotografei em Gonçalves, lá em Minas Gerais. 

[foto Alberto Villas]

O COMEÇO DO FIM

Na próxima quarta-feira, dia primeiro de julho, quem acordar em Brasília e for a uma banca comprar o jornal O Globo, não vai mais encontrar. O jornal acaba de anunciar que não terá mais a versão em papel na capital do país. Sim, O Globo de papel, que já não chegava às bancas de Recife, agora não vão mais circular em Brasília e Goiânia. A pandemia, além de todos os males que está causando à humanidade, está acelerando a morte dos jornais como sempre conhecemos. Quem não se acostumou ainda com a versão online, vai de ter de se acostumar. Aquele prazer de sentir o cheiro do café com o jornal em cima da mesa, vai virar coisa do passado. Aproveite! Os jornais de papel estão com os dias contados. 

[foto Edição de O Globo do dia da inauguração de Brasília/Reprodução]

DESORDEM MUNDIAL

Poucos são os que estão dentro de casa pra valer. Recolhidos nos seus cantos, aproveitando os primeiros raios de sol que batem na varanda do apartamento. Que organizaram sua vida em espaços de quatro cantos. Aqueles que espiam a vida lá fora pela janela e se assustam quando ligam a televisão e enxergam transbordando as ruas do comércio popular de São Luiz, de Natal, de Belém do Pará, de São Paulo, de Belo Horizonte. São assustadoras as imagens das praias cheias no Rio de Janeiro, pessoas com máscara no queixo, na mão ou em lugar nenhum. São poucas as pessoas que estão vivendo de leitura, de live, delivery e home office, que na França chamam de télé-travail. O mundo virou uma bagunça de abre e fecha, de 90% dos leitos de UTI fechados, de respiradores que não funcionam, de repórteres com máscara mostrando gente sem máscara, de comércio aberto à meia porta, de ministro sem diploma que declarou no currículo, com uma vontade danada de ver o Queiroz colocando a boca no trombone, Flávio preso, o presidente da República caindo. Mas estou falando da bagunça cotidiana, o pó acumulado pela preguiça da faxina, o livro pra ler em cima da mesa com o marcador na primeira página, o pão crescendo no forno, a página do calendário já virada pra julho, uma folha em branco para organizar uma lista de coisas pra fazer.

[Ilustração/Obra de Stefan Zsaits]

MEU LEMA

 


Acordei mais alegrinho, não sei se alguém me disse ou se sonhei que andam espalhando hai-kais de Lemininski pela cidade. Escritos com tinha vermelha em papel couché, estão colados com grude nos postes. Hoje é domingo, pé de cachimbo. Hoje é dia de feira. É domingo no Vietnã, segunda em Sidney, é domingo em Ipanema, saudade de Itapuã.

 

 

 

 

TERRA EM TRANSE

Não saio, mas não sei se é pra sair ou pra ficar. Não sei se os shoppings estão abertos ou fechados, se os livros estão expostos, se o milkshake de Ovomaltine ainda existe, se existem vagas nos leitos na UTI de Caruaru. Não sei se é um metro ou dois metros de distância, se o rodízio está valendo, se os bares estão abertos, onde estão sendo enterrados os mil mortos por dia. Não sei se estão tomando hidroxicloroquina ou não, se os respiradores que não funcionam voltaram pra China, quando é que vai ser o próximo Fla-Flu, se o inverno vai chegar, se o ministro da Saúde vai ser nomeado, o que vai acontecer com o da Educação que não tem fez doutorado em Rosario. Não sei o que estão fazendo um milhão e tanto de contaminados. Onde vivem, o que fazem, o que comem. Não sei a cor da fase de São Paulo, se amarela, vermelha ou laranja. Não sei se a máscara do Doria é Dior, Chanel, Kenzo ou Gucci. Não sei mais a quantas anda o meu colesterol, não sei se o Doutor Brandão está atendendo ou não. Não sei como vai minha aldeia, como vai São Miguel dos Milagres, se o mar ainda vai e volta, se o peixe ainda é fresco, se aquelas casas pobres ainda estão com os telhados cobertos de antenas de TV. Não sei quanto custa meia dúzia de caqui, um saquinho de limão, uma caixinha de kiwi. Não sei se o feirante continua fazendo piada com a morena que passa fazendo pirraça tirando o sossego da gente. Se a moça do caixa do SuperVille continua perguntando se é dinheiro ou cartão, se não tem uma nota menor. Só sei que o meu inglês está bom ou ótimo pra trabalhar na Organização Mundial de Saude. Look the evolution of the coronavirus in the world is very important.