EU SEI QUE É JUNHO

Sim, Alceu, eu sei que é junho, o doido e gris seteiro, com seu capuz escuro e bolorento, as setas que passaram com o vento, zunindo pela noite, no terreiro. Maio ficou pra trás, não sei se deixou uma saudade doida, pequena, oculta, ou uma saudade de tudo. Pois é, Alceu, eu sei que é junho, esse relógio lento, esse punhal de lesma, esse ponteiro, esse morcego em volta do candeeiro, e o chumbo de um velho pensamento. Já guardei o calendário imantado com a imagem daquela senhora sentada lendo Il Manifesto num bar de Florença, observada por um pôster de Che Guevara na parede, e sobre a mesa uma garrafinha de San Pellegrino que, de longe, parece ser sabor figo. Hoje já dia primeiro e eu renovo minha paixão por todos os dias primeiro. Calma, Alceu, eu sei que é junho, o barro dessas horas, o berro desses céus, ai, de anti-auroras, e essas cisternas, sombra, cinza, sul. Maio não teve dias piores, dias melhores, dias mais tensos, dias propícios para o amor, dias favoráveis ao dinheiro. Maio passou aqui, não foi muito longe, sequer no hall do meu apartamento. O sol bateu na minha cara entre sete e sete e doze da manhã, na varanda que dá pra árvores repletas de maritacas em alvoroço. Eu tenho de ir, Alceu, e esses aquários fundos, cristalinos, onde vão se afogar mudos meninos, entre peixinhos de geléia azul. 

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