PASSE BEM

Os jornais dão mil dicas para enfrentar o dia-a-dia da pandemia, levando em conta que todos estão dentro de casa, esperando a onda passar, a curva se estabilizar, o pesadelo ir pro espaço sideral. Fala-se em depressão, em aflição, em tédio mesmo. Ensinam yoga, ginástica, dança, pilates e meditação. Como não coloco os pés na rua há 72 dias, coloquei a cabeça no travesseiro pensando em tudo que tenho feito. Acordo sem despertador às seis horas da manhã e, viciado, leio os três principais jornais do país para alimentar o Diário de Notícias que escrevo no blog Nocaute. Ligo a televisão e dou bom dia à Julia Duailibi na GloboNews, minha companheira das primeiras horas da manhã, antes mesmo do dia amanhecer. Preparo a mesa de café, bem caprichada, isso faço há anos. Vejo e-mails, o UOL, espio o Face, tomo um capuccino. Vejo o que dá notícia no Nocaute, escrevo. No intervalo das horas, cuido da horta, leio a biografia de Van Gogh, coloco roupa na máquina, mergulho na revistaria e na biblioteca numa  pesquisa para o livro que estou escrevendo, isso sempre à noite. Escrevo o diário ilustrado da família, isso faço há 42 anos. Brinco com a Shakira, que está passando uns dias aqui. Ela acorda sempre animada, fazendo festa, se lixando pra pandemia. Ameaça latir quando a luz do hall acende. O meu dia não tem ordem. Lembro-me que tomo laranjada, abro as janelas pra entrar o sol, almoço uma comida sempre deliciosa preparada pela Margarida. Checo quem faz aniversário, ontem foi o Zuenir Ventura. Mandei os parabéns. Reviso páginas do meu livro. Pensando bem, tudo é muito organizado e caótico ao mesmo tempo. Lembro que terça é dia de crônica do Humberto Werneck, que recebo por e-mail. Me esqueci de ler o Antônio Prata no domingo, vou no balaio, acho a Folha de domingo e separo para ler depois do almoço. Mando mensagem de voz pra minha irmã, despacho uma foto da Shakira pra Marilia e pra Anita, lembro que tenho de depositar uma grana na conta do jornaleiro. Sinto dor nos braços de tanto higienizar laranjas, limões, tomates, abacates, caquis, papaias. Ouço música, o disco Só, da Adriana Calcanhoto, que entrou no Spotify. Quero ouvir Bahianas e a Cozinha Mineira, capa da revista Ela de domingo. É tudo ao mesmo tempo agora e a roupa pra passar que prometi pra hoje, ficou pra amanhã.

[ilustração/Obra de Sangram Majumdar] 

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