MAIOR E VACINADO

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Tenho cicatrizes no braço de vacinas que tomei há mais de sessenta anos. Vacinas deixavam marcas para sempre. Poliomelite, sarampo, catapora, escarlatina. Tomávamos vacina na farmácia do Hormínio. Injeções que doíam muito, davam febre, a gente ficava derrubado, jururu, faltava no Colégio. Se forçar um pouco minha memória, ainda sinto o cheiro de éter naquele cubículo da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, onde seringas ficavam dentro de uma bacia de alumínio cheia de água quente. Tinha pavor daquele ambiente. Tantos anos depois, estamos aqui sentados esperando um cientista em qualquer parte do mundo anunciar a vacina para o Covid-19. Estamos esperando um plantão do Jornal Nacional, uma edição extra da Lancet ou qualquer coisa assim. Aí poderemos sair de casa e correr numa livraria para comprar o livro de fotografias sobre o Mais Médicos do Araquem Alcântara, numa banca para comprar a Quatro cinco um de junho, na Fabrique comprar um pain aux raisins, no SuperVille comprar uma Fanta Grapefruit ou quaquer coisa assim. Tranquei a vida. A novidade aqui dentro é o disco novo do Frejat, minhas mudinhas de beterraba que germinaram na horta da varanda, o pão que acabou de sair do forno, o Ovomaltine que está no fim e a Julia Duailibi mostrando no telão o número 1.185. Mil cento e oitenta e cinco mortos nas últimas 24 horas. 

[ilustração Mike McQuade/NYTimes]

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