AGUENTA CORAÇÃO

Não sei se o meu é bobo ou vagabundo. Lembro-me dele desde menino, quando desenhava em papel de seda a aorta direita e a aorta esquerda, Uma vermelha, outra azul. Eu era craque em desenhar coração nas aulas de ciências naturais e ainda sonhava em ser médico, desses doutores que abrem o peito dos outros e arranca o coração e troca por outro. Queria ser o Doutor Christiaan Barnard. Veio a tropicália e eu conheci os versos de Vicente Celestino: Mas diga tua ordem espero/Por ti não importa matar ou morrer/E ela disse ao campônio a brincar/Se é verdade tua louca paixão/Partes já e pra mim vá buscar/De tua mãe inteiro o coração. Mudei de rumo, achei que estava mais pra poeta do que pra médico. E segui observando as letras das canções: Eu lavo e passo/Sirvo à mesa e faxino/Aprendo e te ensino/Posso até dirigir/Comprar um táxi/Só pra lhe servir. Procuro no livro dos sonhos o que significa sonhar com um coração vermelho, sangrando, bobo, bola, balão, coração São João. Que não vai ter, eu sei, como não vai ter Olimpíada, Flip, a festa do couscous marroquino no meu aniversário, quem sabe a festa do Círio de Nazaré, a festa do boi. A minha dúvida nas primeiras horas da manhã de uma semana que começa é saber se o meu coração é garantido ou caprichoso.  

 

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