O DIA DE AMANHÃ

Caminhando para cem dias confinado, fotografo detalhes da minha casa para que a história seja contada no futuro. Uma Frida Kalo estampada num prato de porcelana dependurado na parede, uma sardinha de pano vinda do Mercado da Ribeira exposta numa estante do escritório, uma motocicleta de lata de 1943, brinquedo francês comprado num mercado de pulgas, na revistaria. São detalhes importantes de nós dois. O baú de fotografias em preto e branco deixadas por meu pai, muitas delas com legendas no verso: Bebendo uma água de coco em uma barraca na aprazível praia de Fortaleza, cidade hospitaleira. Se Gilberto Gil ouvia Cely Campelo pra não cair, aqui coloco na vitrola um vinil novinho em folha vindo da Rússia, em que Caetano muito tropicalista canta que em volta da mesa, longe do quintal, a vida começa no ponto final. Eles têm certeza do bem e do mal, falam com franqueza do bem e do mal. No Spotify, tento traduzir os novos versos de Bob Dylan, rouco como Tom Waits, dizendo que ele não é um cachorro na coleira. Fotografo para a eternidade o Pato Donald dirigindo uma baratinha, talvez a coisa mais antiga que tenho aqui no meu lar. O museu de mim mesmo não me deixa cair. Tenho perdido live, uma atrás da outra. De vez em quando capturo uma aqui, outra ali. João Bosco cantando Agnus Sei, Tom Zé cantando menina, amanhã de manhã quando eu acordar quero lhe dizer que o mundo vai desabar sobre nós. O meu dia precisaria de pelo menos 32 horas, fiz as contas, pra dar conta do recado. Tem dias que o novo livro fica parado e as ideias na cabeça se atrapalham e me incomodam. Será que as páginas que prometi pra Iara vão ficar pro São João? Não aguento mais ouvir na televisão a frase foram liberados para reabrir. Viro o disco. Toda essa gente se engana ou então finge que não vê que eu nasci pra ser o superbacana. Era uma época de Superist, um comprido com três camadas, uma de cada cor, infalível contra a gripe. São coisas que guardo de criança, ficaram na minha cabeça pra nunca mais sair. O drops Supra-Sumo com as balinhas de laranja e limão embaladas em papel alumínio, o suco Yuki, o primeiro em lata, as figurinhas do chicletes Ping-Pong, os soldadinhos que vinham dentro do vidro de Toddy. E a emoção de tirar com uma faca a cortiça da tampinha de Coca-Cola e ver se a tampinha estava premiada? Hoje o dia está apenas começando.        

2 comentários em “O DIA DE AMANHÃ

  1. Alberto, bom dia. Desde o começo da quarentena criei uma série Cantos da Minha Casa no Instagram e diariamente posto uma fotografia de alguma coisa que me traz as memórias de que vc. fala. Um jeito de rever a vida, nesses hoje 93 dias de reclusão. Abração

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