DESORDEM MUNDIAL

Poucos são os que estão dentro de casa pra valer. Recolhidos nos seus cantos, aproveitando os primeiros raios de sol que batem na varanda do apartamento. Que organizaram sua vida em espaços de quatro cantos. Aqueles que espiam a vida lá fora pela janela e se assustam quando ligam a televisão e enxergam transbordando as ruas do comércio popular de São Luiz, de Natal, de Belém do Pará, de São Paulo, de Belo Horizonte. São assustadoras as imagens das praias cheias no Rio de Janeiro, pessoas com máscara no queixo, na mão ou em lugar nenhum. São poucas as pessoas que estão vivendo de leitura, de live, delivery e home office, que na França chamam de télé-travail. O mundo virou uma bagunça de abre e fecha, de 90% dos leitos de UTI fechados, de respiradores que não funcionam, de repórteres com máscara mostrando gente sem máscara, de comércio aberto à meia porta, de ministro sem diploma que declarou no currículo, com uma vontade danada de ver o Queiroz colocando a boca no trombone, Flávio preso, o presidente da República caindo. Mas estou falando da bagunça cotidiana, o pó acumulado pela preguiça da faxina, o livro pra ler em cima da mesa com o marcador na primeira página, o pão crescendo no forno, a página do calendário já virada pra julho, uma folha em branco para organizar uma lista de coisas pra fazer.

[Ilustração/Obra de Stefan Zsaits]

2 comentários em “DESORDEM MUNDIAL

  1. Espelho, espelho meu!!!! Obrigada por suas crônicas diárias, me dão aquela sensação boa de que não estou sozinha!!!😍🤗

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