O DIA DO ESPANTALHO

Passei o dia ouvindo Sérgio Ricardo. Empilhei todos os seus discos e fui escutando um a um, como se tristeza não vivesse fim. Ainda não acabei, hoje continuo, até chegar ao Ponto de Partida. Quando fui caminhar, dar voltas em volta do meu prédio, ele já estava morto. Andando a passos apressados, fui lembrando das relíquias, todos os seus discos, um ainda em vinil, os dois fascículos da História da Música Popular Brasileira, seu livro Quem quebrou meu violão, seus filmes. Não saia da minha cabeça Alceu cantando A Noite do Espantalho. Nunca foi pop, nunca se entregou porque não era passarinho pra viver lá na prisão. Quase piso na frágil casquinha de ovo caída no chão do meu caminho, ainda suja de sangue, sinal de que nasceu mais um passarinho no jardim do meu prédio. Procurei, procurei mas não encontrei o ninho em meio a tantas árvores, galhos, folhas secas, verdes e flores. Pensar pode e eu pensei muito nesta manhã de sol, céu aberto e azul, nenhum sinal de chuva, água que tanto precisamos. O dia perdeu a graça. Eu queria pedir a vocês um pouco de lucidez para ouvir o que eu vou cantar. Silêncio. Vocês ganharam! Vocês ganharam! Viva Sérgio Ricardo!

MOSTRA A SUA CARA!

Preste atenção na chamada na televisão anunciando a volta da novela Vale-Tudo, de Gilberto Braga, Agnaldo Silva e Leonor Bassères, no Globoplay. É inacreditável como o editor de imagens consegui reunir falas que saíram de 1988 e caíram como uma luva em 2020. Até mesmo um Guedes apareceu por lá. É simplesmente espetacular. Vale a pena prestar atenção. 

[foto Reprodução/TV Globo]

MANIPULAÇÃO

Texto de Angela Carrato
Você gostaria da saber como funciona o processo para manter artificialmente a imagem positiva de uma determinada organização?
Vou fazer um passo a passo com uma situação concreta, que aconteceu na edição de hoje (21/7) do Jornal Nacional.
1. O principal assunto político não era a operação da Lava Jato de busca e apreensão em 15 endereços do senador tucano José Serra (SP) e empresários supostamente ligados a ele.
As denúncias contra Serra são antigas, várias já prescreveram e dificilmente surtirão algum efeito prático, porque ele está doente, idoso e em fim de carreira. Vale dizer: é carta fora do baralho.
2. O principal assunto era que a Lava Jato de Curitiba começou a ser desmontoda. Já está na capital do Paraná uma equipe técnica da PGR com o objetivo de copiar todos os dados relativos às suas 71 operações e levá-los para Brasília.
A “República de Curitiba” não queria entregar esses dados, mesmo formalmente sendo submetida à PGR. Para tanto recorreu até ao STF e perdeu.
A Lava Jato perdeu assim seu grande trunfo para continuar existindo e agindo como um estado dentro do estado.
3. O teor da notícia deveria, portanto, seguir essa ordem.
4. Só que o JN, que sempre foi e continua sendo parceiro de Moro e do procurador Dallagnol, deu a noticia do ponto de vista que interessa apenas à Lava Jato: supervalorizou e mostrou primeiro a operação contra Serra, antes de falar sobre os técnicos da PGR em Curitiba.
Com isso, transmitiu para o seu respeitável público a impressão de que a Lava Jato continua firme e forte no combate à corrupção. Até aquele manjado fundo vermelho, com dutos de esgoto de onde saem notas de R$100, tão descaradamente usado contra o PT, foi reativado.
4. Como já está fartamente provado – vide as denúncias do The InterceptBr que o JN esconde até hoje – a Lava Jato nunca combateu a corrupção.
Ela não passou de uma operação cuidadosamente articulada para disseminar o ódio ao PT, derrubar Dilma Rousseff, prender, sem provas, Lula e viabilizar a vitória da direita, cansada de perder eleições no Brasil.
Operação que contou inclusive com a participação ilegal de agentes do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e do próprio FBI. Fato gravíssimo que o JN continua escondendo do seu respeitavel público.
5. A Lava Jato cumpriu a contento o seu papel. Tanto que Moro foi fundamental para a vitória de Bolsonaro.
O que Bolsonaro não esperava era que Moro tivesse projeto político próprio e que saísse do governo atirando.
6. Se o JN fizesse jornalismo e não manipulasse para a Lava Jato, a manchete política hoje deveria ser algo como: “Lava Jato usa Serra para tentar evitar seu próprio fim”.
7. Que Serra, como vários outros tucanos, deveriam ter sido investigados, não resta dúvida. Mas como isso não foi feito na hora certa, virou pizza. O mesmo pode ser dito em relação às denúncias contra Michel Temer.
Daí essa operação de hoje só servir para enganar bobo e tentar manter acesa a mentirosa imagem de Moro como paladino contra a corrupção.
8. Por outro lado, um duelo de vida ou morte continua sendo travado entre Bolsonaro e Moro. Mas isso a Globo não mostra, especialmente agora que o JN está aliviando a barra para Bolsonaro.
Dai o complexo jogo em que o JN está metido: morde e assopra Bolsonaro, apóia a agenda ultraliberal de Guedes e se mantém firme com Moro, até o momento, seu nome preferido para 2022. 

O QUE É QUE VOCÊ TEM NESSA CABEÇA, IRMÃO?

Você que não acredita muito nesse tal de coronavírus. Você que se nega a usar máscara sabendo que nunca vão te multar nas paradas onde anda. Você que nunca comprou sequer um álcool gel daqueles bem pequenininhos. Você que na primeira hora pediu uma receita ao seu médico e comprou logo seis caixinhas de Reuquinol. Você que acha que a TV Globo é uma funerária. Você que usa máscara no queixo, dependurada na orelha ou no bolso. Você que não entende quando a televisão diz esses tempos que estamos vivendo ou quando tudo passar. Você que acha graça quando vê escrito nas redes sociais #fiqueemcasa. Você que levanta, anda, circula sem nada pra fazer na rua. Você que tosse, respira, gargalha em cima de qualquer um. Você que não lava as mãos. Você que não passa sabão nas laranjas, nem mesmo os limões. Você que vai pra porta do Palácio da Alvorada ou pros bares do Leblon. Você que não se interessa em saber quantas pessoas foram infectadas ou quantas pessoas morreram nas últimas 24 horas. Você que rasga multa. Você que tomou vermífugo pra evitar a doença. Você que se lixa para o vírus nas aldeias indígenas. Você que ainda acredita na gripezinha. Você que ainda grita mito! Você que votou no Bolsonaro. O que é que você tem nessa cabeça, irmão?

REALIDADE VIRTUAL

Finalmente uma boa notícia! A coleção da revista Realidade, publicada pela Editora Abril entre 1966 e 1976, agora está inteiramente digitalizada e disponível no site da Biblioteca Nacional. Realidade é uma espécie de Bíblia do bom jornalismo.

http:bndigital.bn.br/acervo-digital/realidade/213659

VI E GOSTEI

É sempre bom ficar de olho nas lives do Sempre um Papo. Ontem, por exemplo, o encontro foi entre o ator Thiago Lacerda e o escritor e roteirista Antônio Prata. Mediado por Afonso Borges, idealizador do Sempre um Papo, a conversa foi pra lá de divertida, cheia de literatura, ideias, política e trabalho. O papo é sempre bom. Se você sintoniza, não consegue mais desligar e quando acaba fica sempre aquele óóó… no ar, tipo quero mais. 

O TRABALHO

Eu estava brincando de cabana com o meu primeiro filho quando, de repente, olhei o relógio, sai da brincadeira, fui tomar banho e me aprontar. Era era pequeno ainda, ele já tinha ido na escola de manhã e feito os deveres da escola, logo depois do almoço. O meu trabalho só começava bem no final da tarde, se não me falha a memória, no oitavo andar da Avenida Engenheiro Caetano Álvares. Todos os dias, neste período da tarde, costumava brincar com os dois, nessa época eram dois, o Julião e a Sara. Nossas cabanas eram muito bacanas, de dar inveja. Ali dentro sonhávamos com os clássicos da literatura juvenil: Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, As Aventuras de Peter Pan, Simbá, o Marujo.Vivíamos com Alice no País das Maravilhas. Nossas cabanas tinham teto de cobertor xadrez e um puxadinho que saia do beliche e ocupava parte do quarto deles. Eram cabanas misteriosas e quando entrávamos, iluminávamos com duas lanternas grandes. Cada canto tinha um segredo, caixinhas de madeiras, segredos guardados a sete chaves. Todo dia, no auge da brincadeira, dava a hora de eu ir embora, mergulhar no noticiário da América Latina, do Oriente Médio, da América do Norte, da Oceania, até tarde da noite. Um dia, quando estávamos no auge da brincadeira, o meu filho olhou nos meus olhos com uma cara de tristeza e lamentou: “pai, por que você não vai trabalhar só no dia que tem notícia?” Hoje amanheci com essa pergunta do Julião na cabeça, dita lá no início dos anos 1980.