NO FUTURE

Aí, de repente, o mundo ficou esquisito pra caramba. Até as casas foram separadas umas das outras, distância mínima de cinco metros medida por uma trena dos vigilantes da saúde. Acabou o beijo, o falar no ouvido, o chupão no cangote e a canção Aquele Abraço virou uma coisa tão do passado quanto nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia. Os dermatologistas passaram a ser chamados de pessoas da linha de frente, convocados para curar as mãos secas de tanto álcool gel, de tanta água com sabão. Os pés também secaram e enrugaram de tanta água sanitária, de tanto lysoform, de pisar em tapetes antissépticos. Agora são apenas cabines individuais feitas de acrílico. Nos equipamentos das academias, nas mesas dos cafés, nas poltronas dos cinemas, nas cadeiras dos estádios de futebol, nas pistas de cooper nos parques, de dança nos inferninhos, nas raias das piscinas, até nas mesas de reuniões da repartição. No Recife, não se fala mais um cheiro pra você porque ninguém mais sente cheiro de ninguém. Ninguém se toca mais em ninguém, ninguém respira mais perto de ninguém, até o ridículo cumprimento com o cotovelo caiu de moda. Inventaram a máquina de lavar compras, os sapatos com solas descartáveis, capacetes leves e maleáveis e plástico resistente para abraço apertado. A última moda são as máscaras transparentes para sabermos se as pessoas estão rindo ou chorando.  

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