O CASTIGO

Eu me lembro bem as vezes que fiquei confinado, no máximo quinze, vinte minutos. Era dentro de um banheiro espaçoso, mas tedioso. Havia um vaso, um bidê, uma banheira, um box protegido por uma toalha de peixes coloridos nadando. Havia um cesto de vime onde minha mãe ia juntando a roupa suja, um armarinho espaçoso com um espelho carcomido por uma espécie de ferrugem nas bordas. Dentro do armarinho, ela guardava as caixinhas de dentifrício Kollynos, os sabonetes Vale Quanto Pesa, o estojo de primeiros socorros, uma caixinha de grampos, um pente Flamengo, o vidro de brilhantina do meu pai. No box, o Vale Quanto Pesa quase sempre no fim, uma pedra palmes, uma bucha vegetal e um vidro de xampu de ovo. A parede era de azulejo branco até a metade e a outra metade pintada de azul, tinta epóxi. Haviam toalhas comuns dependuradas, cada um tinha a sua. A minha era de cor laranja. Era ali que, de tempos em tempos, passava aqueles quinze, vinte minutos de castigo. Quando o clima esquentava entre os cinco filhos, minha mãe escolhia um, pegava pelo braço e colocava no banheiro. Eu ficava sentado o tempo todo na beirada da banheira, olhando para aquelas coisas, para o nada, esperando o tempo passar. Quando passava, minha mãe abria a porta, mostrava o caminho de saída e dizia apenas uma frase: Veja se aprende! Eu aprendi.

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