PENSAR PODE

Ouvi isso no primeiro dia útil da semana, da boca de um padre no papo de segunda. Se pensar pode, quero ir pro sertão colocar ração de poedeira para as galinhas legorn, jogar milho pros pombos, farelo pros porcos, canjiquinha pros pintinhos. Quero experimentar a rapadura ainda mole, ver as águas do rio correr, ouvir os pássaros cantar. Quero tomar sol no rosto, correr domingo no parque, ir ao Instituto Moreira Sales comprar a Quatro cinco um de junho com Caetano desfigurado na capa. Quero tomar chuva, molhar meu All Star branco pra depois enfiar dentro da máquina de lavar com Vanish. Quero chutar pedras no caminho, comer uma coxinha na Cristallo, procurar lichias no sacolão só de brincadeira porque sei que a safra ainda está verde. Perguntar o nome do bebê no carrinho, errar mais uma vez: como ele chama? É ela! Como ela chama? É ele! Já que pensar pode quero ir-me embora daqui, voltar pra Firenze, passar horas na Feltrinelli procurando um livro do Erri De Luca que ainda não tenho, tomar um sol levante no Zoe, fazer a milésima foto do por do sol no Arno, levar umas latinhas de San Pellegrino de frutas exóticas pra casa, ler o La Repubblica todos os dias, comprar  o Il Manifesto na sexta, a L’Expresso no domingo. Voltar ao mercado pra dividir em três uma bisteca do tamanho de um boi, acompanhada de uma Moretti estupidamente gelada. Ouvir crianças falando italiano, avere un sconto, papà! Já que pensar pode, eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

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