AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

Não são mais oito milhões de habitantes, de todo canto em ação, que se agridem cortesmente, morrendo a todo vapor e amando com todo ódio, se odeiam com todo amor. São muito mais, se multiplicaram, cresceram milhões. Nunca tinha vivido confinado por tanto tempo desde que aqui cheguei, quando ainda não havia Rita Lee para mim e os Novos Baianos passeavam na sua garoa, curtindo numa boa. Hoje, de noite, eu não rondo mais a cidade a te procurar, sem encontrar. Não volto mais pra casa abatido, desencantado da vida. Só o sonho alegria me dá porque nele você está. Nas bancas, não existe mais o Notícias Populares. Por isso, não sei se amanhã vai dar na primeira edição: cena de sangue num bar da Avenida São João. O povo oprimido continua nas filas, nas vilas, favelas. A força da grana ainda ergue e destrói coisas belas. A feia fumaça ainda sobe apagando as estrelas. Mesmo aqui confinado eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços, tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva. Nenhum outro som no ar pra que todo mundo ouça. Eu agora vou cantar para todas as moças, eu agora vou bater para todas as moças, eu agora vou dançar para todas as moças, para todas Ayabás, para todas elas. Eu não posso mais ficar aqui a esperar que um dia de repente você volte para mim. Aqui dentro, o sol não queima mais o meu rosto. Ainda existe um resto de esperança de ver de perto o seu olhar que eu trago na lembrança. Não me pergunte, não me responda, não me procure e não se esconda. Não diga nada, saiba de tudo, fique calada, me deixe mudo. Preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo. 

[foto Alberto Villas]

 

 

 

 

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