SENHORES PASSAGEIROS!

Estou quase desistindo, acho que nunca mais vou entrar no ônibus Lapa, Via Iório, Correios, Praça Clovis, Cohab Adventista. Acho que nunca mais vou entrar no metrô Vila Madalena, passar pelo Hospital das Clínicas e para descer na Consolação. Acho que nunca mais vou andar de bicicleta, entrar num trem de ferro, sim era assim que chamávamos os trens, hoje modernos. Acho que nunca mais vou entrar num avião, procurar meu assento, sentar, pegar a revista de bordo, o folheto que ensina onde fica a saída de emergência. Nunca mais vou ouvir a aeromoça perguntar se quero massa ou frango, tinto ou branco. Acho que nunca mais vou ver o policial conferindo a minha fotografia, me olhando desconfiado, que barba é essa? Acho que nunca mais vou ultrapassar aquela cabine, enxergar as placas bilingues saída, sortie, exit, uscita, austang. No meu cafofo, ouço músicas de além mar, leio livros cuja pilha vai diminuindo, guardados esperando tempo. Escrevo um livro longo e difícil, cheio de fatos e fotos. Perambulo do quarto pro corredor, do corredor pra cozinha, da cozinha pra sala, da sala para a varanda, onde as coisas mudam todos os dias: crescem os pés de alho, de beterraba, de inhame e as ervas finas do meu agronegócio. Por ali passa todas as manhãs um beija-flor. Não se admire se um dia, um invadir a porta da tua casa, te der um beijo e partir, foi eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade você.

[ilustração/Obra de Robert Rauschenberg]

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