O TRABALHO

Eu estava brincando de cabana com o meu primeiro filho quando, de repente, olhei o relógio, sai da brincadeira, fui tomar banho e me aprontar. Era era pequeno ainda, ele já tinha ido na escola de manhã e feito os deveres da escola, logo depois do almoço. O meu trabalho só começava bem no final da tarde, se não me falha a memória, no oitavo andar da Avenida Engenheiro Caetano Álvares. Todos os dias, neste período da tarde, costumava brincar com os dois, nessa época eram dois, o Julião e a Sara. Nossas cabanas eram muito bacanas, de dar inveja. Ali dentro sonhávamos com os clássicos da literatura juvenil: Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, As Aventuras de Peter Pan, Simbá, o Marujo.Vivíamos com Alice no País das Maravilhas. Nossas cabanas tinham teto de cobertor xadrez e um puxadinho que saia do beliche e ocupava parte do quarto deles. Eram cabanas misteriosas e quando entrávamos, iluminávamos com duas lanternas grandes. Cada canto tinha um segredo, caixinhas de madeiras, segredos guardados a sete chaves. Todo dia, no auge da brincadeira, dava a hora de eu ir embora, mergulhar no noticiário da América Latina, do Oriente Médio, da América do Norte, da Oceania, até tarde da noite. Um dia, quando estávamos no auge da brincadeira, o meu filho olhou nos meus olhos com uma cara de tristeza e lamentou: “pai, por que você não vai trabalhar só no dia que tem notícia?” Hoje amanheci com essa pergunta do Julião na cabeça, dita lá no início dos anos 1980. 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s