O DIA DO ESPANTALHO

Passei o dia ouvindo Sérgio Ricardo. Empilhei todos os seus discos e fui escutando um a um, como se tristeza não vivesse fim. Ainda não acabei, hoje continuo, até chegar ao Ponto de Partida. Quando fui caminhar, dar voltas em volta do meu prédio, ele já estava morto. Andando a passos apressados, fui lembrando das relíquias, todos os seus discos, um ainda em vinil, os dois fascículos da História da Música Popular Brasileira, seu livro Quem quebrou meu violão, seus filmes. Não saia da minha cabeça Alceu cantando A Noite do Espantalho. Nunca foi pop, nunca se entregou porque não era passarinho pra viver lá na prisão. Quase piso na frágil casquinha de ovo caída no chão do meu caminho, ainda suja de sangue, sinal de que nasceu mais um passarinho no jardim do meu prédio. Procurei, procurei mas não encontrei o ninho em meio a tantas árvores, galhos, folhas secas, verdes e flores. Pensar pode e eu pensei muito nesta manhã de sol, céu aberto e azul, nenhum sinal de chuva, água que tanto precisamos. O dia perdeu a graça. Eu queria pedir a vocês um pouco de lucidez para ouvir o que eu vou cantar. Silêncio. Vocês ganharam! Vocês ganharam! Viva Sérgio Ricardo!

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