SORRIA, VOCÊ ESTÁ NA CNN

Algumas observações sobre o programa CNN Tonight, recém estreado:

O “sucesso” parece ter subido à cabeça da advogada criminalista Gabriela Prioli, que deixou a bancada do grande debate, onde discutia política, para o “debate alegrinho.

Gabriela, de repente, virou uma animada apresentadora de TV.

Maria Palma deixou a bancada do Jornalismo para mergulhar no entretenimento.

Ambas, estampam na cara: “gente, eu estou tão feliz de trabalhar na CNN Brasil!”

Leandro Karnal passa o programa inteiro tentando traduzir firulas em filosofia.

Debate bobo sobre WhatsApp (típico de um programa do SBT), leva uma das animadas apresentadoras a declarar: “meu emoji preferido é o coraçãozinho roxo”.

No segundo programa debocharam dos comentários sobre o primeiro programa. É  “muito formal”, escreveu um deles. Os apresentadores então colocaram os pés na bancada (inclusive Karnal) e perguntaram: “assim fica mais informal?”, com direito a close do sapato de Gabriela Prioli.

O programa não tem contraponto. Quando tem, é fofo.

Nada mais bobo que a platéia virtual que inventaram. Nos quadradinhos, os participantes não abrem a boca, apenas levantam plaquinhas com “sim”, “não” “curti”, essas coisas.

Está faltando alguma coisa nesse Tonight. Estamos procurando.

Boa noite!

[foto Reprodução/CNN Brasil]

 

 

VAMOS FUGIR!

Hoje eu vou fugir de casa, vou levar a mala cheia de ilusão. Vou deixar alguma coisa velha esparramada toda pelo chão.Vou correr num automóvel enorme e forte, a sorte e a morte a esperar. Vultos altos e baixos que me assustavam só em olhar. Pra onde eu vou, venha também. Eu vou pra Maracangalha, eu vou. Eu vou de liforme branco, eu vou de chapéu de palha, eu vou convidar Anália e se a Anália não quiser ir, eu vou só! Faróis altos e baixos que me fotografama me procurar. Dois olhos de mercúrio iluminam meus passos a me espionar. O sinal está vermelho e os carros vão passando e eu ando, ando, ando.bMinha roupa atravessa e me leva pela mão do chão, do chão, do chão. Vamos fugir deste lugar, baby. Estou cansado de esperar que você me carregue. Vamos fugir pra onde haja um tobogã e que a gente escorregue. Todo dia de manhã, flores que a gente regue, uma banda de maçã, outra banda de reggae. Vamos pegar o primeiro avião com destino a felicidade. Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui. Eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

[Letras citadas: Fuga Número 2 dos Mutantes, Maracangalha, Vamos Fugir, Pense em Mim, Irene. Autores: Mutantes, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Leandro, Leonardo e Caetano Veloso]

MATÉRIA PAGA

Não é de hoje que pipocam nos jornais e revistas, “matérias” que confundem o leitor. Elas são diagramas com uma tipologia sutilmente diferente da usada pelo jornal ou revista, mas com cara de matéria, pinta de matéria. Na edição de domingo (19) da Folha de S.Paulo, tivemos uma caso típico. Duas páginas sobre a ação do governo do Pará no combate ao coronavírus. Além de texto, vimos gráficos, muitos números, enfim tudo muito positivo para o governo paraense. O jornal quando é questionado, sempre argumenta que trata-se praticamente de um anúncio, em que aqui, no caso, o leitor é avisado com uma informação que deixa claro ser um informe publicitário:

Mas no outro canto da página dupla, surge uma dúvida:

O que significa “Estúdio Folha”? Quem escreveu os textos, produziu os gráficos, diagramou, foram jornalistas da Folha ou publicitários do jornal? “Projetos patrocinados” significa que é matéria, mas como foi paga, ela tem foco publicitário? Falta aqui um bom e velho “Informe publicitário”. 

[fotos Reprodução Folha de S.Paulo]

O OLHO DA RUA

No dia em que completei exatos quatro meses confinado dentro de casa, sai de automóvel para ver a cidade, uma volta rápida por ruas ainda esburacadas, sinais piscando desorientados. Senti tontura, apesar de São Paulo não ser aquela coisa engarrafada, poluída, tão suja. Me pareceu meio fantasma, não por respeito ao confinamento, mas porque era domingo e domingo, pensando bem, a cidade é mesmo assim. Apostava no meu susto, no meu espanto, diante de tamanha confusão. Mas praticamente nenhuma. O comércio estava quase todo fechado, bares e restaurantes abertos, quase vazios, sem graça. Vi máscaras de todos os tipos e cores, muitas pessoas sem elas como se nada estivesse acontecendo no mundo, Placas improvisadas de aluga-se e passa-se o ponto dependuradas em portas de aço. Minha cidade parece que parou, que o sangue de sal de frutas não ferve mais no copo d’água. Voltei para minha casa como um pássaro que volta para o seu ninho. Estou preferindo aqui.

[ilustração/Obra de Edward Hopper] 

COMO UMA ONDA

Ando meio desconfiado que somente eu ainda estou dentro de casa me guardando pra quando o carnaval não chegar. Da janela, ouço o barulho dos motores logo cedo, antes do dia amanhecer. Ele só diminui um pouco quando faz muito frio e as pessoas ainda estão se guardando debaixo do cobertor esperando o sol chegar. Uma saudade grande do mar do litoral de São Paulo onde o caminhar de um lado a outro, até bater nas montanhas e voltar, é possível, é viável. Desviar das algas, evitar as águas vivas, um peixinho morto aqui, um caco de concha acolá, um baldinho vermelho perdido, um castelo de areia desmanchando. Dizem que não, mas o domingo é diferente dos dias da semana, mesmo dentro de casa. Daqui a pouco tem uma lasanha no forno, prato sempre de domingo. Um Aperol na taça com três cubos de gelo e uma fatia de laranja não tem cara de segunda. Um lata de Schwepps amassada no lixo e o vermelho na folhinha. A desobrigação de acompanhar as notícias minuto a minuto também dão um ar novo, longe do chamado dia útil. Não, hoje não é um dia inútil. É quando mais avanço o meu livro, que mais ouço Tchaikovsky no Spotify, é o dia que não desço para caminhar três quilômetros em volta do prédio porque ninguém é de ferro. Não sei se hoje ainda tem arrastão, tem jangada no mar, mas quando ele quebra na areia, é bonito, é bonito.

SENHORES PASSAGEIROS!

Estou quase desistindo, acho que nunca mais vou entrar no ônibus Lapa, Via Iório, Correios, Praça Clovis, Cohab Adventista. Acho que nunca mais vou entrar no metrô Vila Madalena, passar pelo Hospital das Clínicas e para descer na Consolação. Acho que nunca mais vou andar de bicicleta, entrar num trem de ferro, sim era assim que chamávamos os trens, hoje modernos. Acho que nunca mais vou entrar num avião, procurar meu assento, sentar, pegar a revista de bordo, o folheto que ensina onde fica a saída de emergência. Nunca mais vou ouvir a aeromoça perguntar se quero massa ou frango, tinto ou branco. Acho que nunca mais vou ver o policial conferindo a minha fotografia, me olhando desconfiado, que barba é essa? Acho que nunca mais vou ultrapassar aquela cabine, enxergar as placas bilingues saída, sortie, exit, uscita, austang. No meu cafofo, ouço músicas de além mar, leio livros cuja pilha vai diminuindo, guardados esperando tempo. Escrevo um livro longo e difícil, cheio de fatos e fotos. Perambulo do quarto pro corredor, do corredor pra cozinha, da cozinha pra sala, da sala para a varanda, onde as coisas mudam todos os dias: crescem os pés de alho, de beterraba, de inhame e as ervas finas do meu agronegócio. Por ali passa todas as manhãs um beija-flor. Não se admire se um dia, um invadir a porta da tua casa, te der um beijo e partir, foi eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade você.

[ilustração/Obra de Robert Rauschenberg]

NÃO SEI PORQUE VI

O jornalista ultra-direitista, demitido recentemente da TV Bandeirantes, estreou sua live no Youtube convidando dois ultra-direitas para participar: Alexandre Garcia e Caio Copolla. Como se já não bastasse a Jovem Pan. Se você quiser saber como é o mundo reacionário e entrar para o time de Bolsonaro, é aqui mesmo. 

[foto Reprodução]