MORA NA FILOSOFIA

Ser jovem em 1968 foi uma das experiências mais fascinantes. Além de ser cabeludo, usar tamancos suecos, calça vermelha e casaco de general, tínhamos mil ideias na cabeça. Viver em comunidade, viver sem dinheiro, viver de amor. Viver como passarinho, andar meio desligado, não sentir os pés no chão. Líamos Erich von Daniken na certeza de que eram os deuses astronautas. Sonhávamos com Macondo ao mesmo tempo com a guerrilha urbana, suburbana e rural. Um exemplar do Voz Operária nas mãos valia ouro, mais valia que qualquer outro jornal. Decifrávamos a miséria da filosofia em livros proibidos, guardados segredos dentro de uma caixa de papelão do extrato de tomate marca Peixe. Curtíamos o barato de ver Janis Joplin no palco e Jimi Hendrix incendiando uma guitarra. O som de Spanish Castle Magic ia e voltava enquanto o sonho era mesmo caminhar contra o vento, sem lenço, sem documento no sol de quase dezembro. Queríamos debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, plantar batatas e colher frutos. A gente não precisava de muito dinheiro, graças à Deus. Tínhamos na cabeça uma fantástica fábrica de ideias, dar uma facada certeira no capitalismo, olha o sangue, olha o sangue no chão! Mas não soubemos por ordem no galinheiro. Na parede do meu quarto, atrás da porta, escrevi em letras miúdas com uma caneta Pilot: O último capitalista que vamos dependurar será aquele que nos vendeu a corda. Entre parentes, rabisquei apenas as iniciais: KM.  

 

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