DEU BRANCO

Branco era o terno de John Lennon e o vestido curto de Yoko Ono no dia do casamento, naquele 1969. Branca era a hóstia que o padre colocava na minha língua de menino do Colégio Marista. Branca era a roupa lavada com Rinso. Brancas eram as asas do anjo que as meninas de Sabará colocavam nas costas pra participar da procissão. Branca era a pomba de Picasso, as penas do albatroz que fotografei no porto de Callais, a capa do álbum duplo dos Beatles. Brancos eram os ovos nevados que o meu pai fazia nos dias de domingo. Branquinho era o líquido que passávanos no papo para corrigir os erros da máquina de escrever. Branco era o giz de Mister Elcio no Colégio de Aplicação. Branca era a toalha de linho que minha mãe colocava na mesa uma vez por ano, na noite de Natal. Brancos eram os mocassins dos playboys da Augusta, dos malandros da Lapa. Branco era o meu tênis Bamba. Branco é o leite das crianças, o queijo fresco vindo lá de Minas. Branco é Joaquim Claudio Corrêa de Mello Junior, baixista dos Titãs. Branca é o nome da empregada da minha irmã mais nova. Branco é o meu All Star que está sem uso há seis meses, lá no fundo da sapateira. 

[ilustração/”White on White”, obra de Kasemir Malevich]

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