OS DIÁRIOS ACUMULADOS NOS TEMPOS DE PANDEMIA

Eu sempre escrevi, desde aquele primeiro de janeiro de 1975, quando estava longe do meu país e achei que seria bom registrar o exílio. Escrevia à mão, depois passei pra máquina de escrever e agora escrevo aqui nesse computador. Hoje, por exemplo, quando saí cedo pra passear com o nosso cachorro, uma mulher caminhando ao meu lado disse que o Canela é uma graça. O nosso Canela é um vira-lata, mas é realmente uma graça. Ela contou que só passeia com o dela à noite, quando chega em casa depois do trabalho. Ele passa o dia no quintal que dá também pra varanda. Contou que ele adora enfiar o focinho na grade e ficar observando o movimento da rua. Mas agora mudou uma mulher para a casa do lado que está implicando com ele, ela não gosta de cachorro. Disse que ele devia ficar preso. “Ora, a casa é minha, moro lá há dez anos e não vou deixar ele preso. Se ela está incomodada, que se mude”. Antes de nos despedirmos, na esquina de Roma com Catão, ela concluiu: “mas eu não sou boba nem nada. Instalei uma câmera porque vai que ela resolve envenenar o Suck, não é mesmo?” Pronto, escrevi.

O que eu sentia pela Matemática era pavor, desde muito pequeno. Nascido para as Humanas, vivia noites sem dormir às vésperas de provas, vinham furúnculos e tinha febre. Era um rebelde que não se conformava em resolver equações que jurava serem inúteis para minha vida. Nunca aprendi a fazer uma raiz quadrada! Quando o boletim vinha nota vermelha em Matemática, o meu pai engenheiro não engolia. Eu argumentava: que dia na minha vida alguém vai me perguntar quanto é a raiz quadrada de 49? Não entendia também porque precisava saber quais eram os afluentes do Amazonas, a capital da Dinamarca e o que foram as Capitanias Hereditárias. Lembrei disso quando fiz um percurso de barco de Manaus até Parintins, passando pelos afluentes. Lembrei disso no dia em que pus os pés em Copenhagen, mas as Capitanias Hereditárias e a raiz quadrada de 49 estou tentando entender até hoje.

Todos em casa temos coração mole, a família inteira. Pai, mãe, filhos, netos, bisnetos. Não existe a palavra insensível por aqui. Não tem como ver alguém mexendo nos sacos pretos de lixo tarde da noite e ficar impassível, cara de paisagem. O coração mole parte em dois. Nas manchetes dos jornais, vejo a euforia com o crescimento do mercado imobiliário. Somos esquerdas demais pra não pensar nas vinte e cinco mil pessoas que moram nas ruas da maior e mais rica cidade da América do Sul. Não tem como ver famílias cujo teto é o viaduto Presidente João Goulart, a marquise da Marabá, o plástico tosco e rasgado daquela que um dia foi uma barraca de camping. O fogareiro na calçada esquentando água para um macarrão, uma flor de plástico em cima de um caixote de frutas selectas, um cão dormindo. Como um argonauta, meu coração não aguenta tanta tormenta. O Doutor Christian Barnard, um dia, trocou um pelo outro, mas era coração com aorta direita e aorta esquerda, aprendi no Marista. Outro dia, o meu irmão mais velho me chamou a atenção: já pensou que o coração da gente é uma máquina que está funcionando vinte e quatro horas por dia, há mais de setenta anos? Uma hora para, não tem jeito. Já cantaram o coração bobo, o coração vagabundo, o coração balão, o coração São João. E também o coração que, não sei porque, bate feliz quando te vê.

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