TRÊS COISAS ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

As paredes são frias, pintadas à óleo, uma combinação de creme com cinza. O barulho é baixo, mas intenso e o pisca-pisca de números e curvas, mais ainda. O cheiro é uma mistura de éter, álcool, clorofórmio, um odor que lembra o cómodo das farmácias de antigamente, onde tomávamos injeção de Benzetacil. Não tem graça nenhuma e o andar apressado do pessoal da linha de frente deixa sempre a impressão de que alguém está indo embora para nunca mais. Às vezes não, apenas é hora de um pequeno procedimento. Os olhos nos aparelhos são atentos, no relógio, no pulso. A vontade de respirar fundo é grande, fazer contraste com aquela dificuldade de aspirar e expirar das pessoas ali. Os pulmões fragilizados viram pra lá e pra cá e vão, aos poucos, transformando-se em farelo nas radiografias que só trazem tristeza. Ultrapassamos os cento e trinta e quatro mil mortos. Do lado de fora faz sol e a vida é mais colorida que aqueles cobertores verdes. Aqui fora, discutem a volta às aulas, a abertura das casas de espetáculo, o shopping a todo vapor, a galera na arquibancada, essas coisas.

Sinceramente, vontade de sair andando a esmo, sem destino, tipo Paris-Texas, tipo Werner Herzog quando escreveu Sur le Chemin des Glaces, sem lenço e sem documento. Sair reto, subir a Catão, ganhar uma estrada, atravessar sete mares, subir montanhas, chegar a Zona da Mata, comer algumas mangas Ubá até enfarar. Reencontrar paisagens, velhos amores e seguir adiante. Subir a América do Sul tipo Diários de Motocicleta, fazer uma pequena revolução. Derrubar o governo da Bolívia e, na Colômbia, soltar um rojão. Revisitar o museu Botero, comer frutas exóticas e seguir caminhando pela estrada de ferro que não vai dar em nada. Ali é o fim do mundo. Vontade de abrir a porta, descer as escadas, deixar as janelas abertas sem se importar se vai chover no sofá, se vai molhar os livros, se vai estufar o chão. Esquecer todos os compromissos, nem que seja por vinte e quatro horas. Não, vinte e quatro horas é pouco. Trinta e seis. Construir um barco, tipo Fitzcarraldo.

Eu tinha uma verdadeira paixão por mapas. Ficava imaginando tempos de outrora, quando navegantes aventureiros saiam singrando pelos mares à procura de novas terras. Gostava de mapas simples e de mapas antigos, aqueles rebuscados, em cor sépia, imitando pergaminho. O meu caderno de Geografia era um capricho só. Tinha um unicamente de mapas. Sou do tempo em que não havia Tocantins, nem Mato-Grosso do Sul. O Acre, Rondônia, Roraima e Amapá eram territórios e tudo isso estava nos meus mapas, cada estado, cada território de uma cor. Goiás era roxo, Minas Gerais era verde e eu já ia me esquecendo do estado da Guanabara, que existia também. Só depois, eu menino ainda, acrescentei dentro de Goiás aquele retângulo, o Distrito Federal. Gostava de imaginar lugares novos, países das maravilhas, terras do nunca. Fazia mapas de cidades, de estradas, copiando aqueles da Quatro Rodas. Até hoje gosto de mapas, espetar alfinetes com a cabeça colorida nos lugares por onde já andei. Me impressionava o Chile tão comprido, a Itália uma bota, o nariz de Minas Gerais, a Bélgica tão pequena. Me perdia naquela União Soviética imensa e despovoada, como a Amazônia. Ver um mapa mundi estendido no chão do meu quarto era a glória. Ainda é, porque meu sonho é conhecer o Zaire, a Zâmbia, o Butão, países que acabei de localizar e que muitos acham que são países que não estão no mapa.

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