NUNCA TE VI MAIS GORDO

Onde eles estão que não os vejo? Dizem que dentro do ônibus, do elevador, supermercado, no hospital, no ar, no avião. Ando na rua paranóico olhando para um e para outro. Quem está com ele? Moças bonitas cheirando a botão de laranjeira, trabalhadores da prefeitura mexendo cimento para fazer calçadas, diaristas apressadas digitando a senha para abrir o portão do prédio, o rapazinho levantando a porta de ferro da ótica, o motorista do carro que freia para eu passar, todos com máscaras. Não sei se estão felizes, rindo ou chorando. Com máscara somos todos iguais. Não os vejo indo embora no ralo da pia quando esfrego as mãos com sabão de coco líquido, não os vejo na sola do meu Nike, não os vejo na minha camisa florida, não os vejo na mesa de um bar onde as pessoas tomam Itaipava. Onde eles estão que não os vejo? Na casca da laranja, escondido nas folhas do repolho, grudado no vidro da janela da sala, no celular acendendo anunciando mensagens, no telefone fixo frio e abandonado no canto do escritório, no envelope convocando para uma reunião virtual do condomínio. Ele aparece redondo cheio de antenas de todas cores no Google. Já trabalhei em laboratório e sei como é o prazer de ver ali quem a gente não vê no dia-a-dia. Prazer macabro porque ele é bonito como uma obra de Beatriz Milhazes, apenas um pouco mais colorido. Que medo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s