QUERO IR PARA PARIS, PARIS NÃO HÁ MAIS

Fico aqui pensando com os meus botões se um dia vou voltar a pegar um avião com destino à felicidade. Chamo de felicidade, Paris, a cidade que conheço na palma da mão, onde morei por quase uma década em tempos sombrios por aqui.

A Paris que eu sonho voltar um dia e não sei se vou realizar, também está triste, com poucas pessoas circulando de máscaras pelas ruas, os cafés fechados, inclusive o Café de Flore onde, uma vez por ano, ia tomar um chocolate quente e comer um croissant au beurre

Eu era apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem amigos importantes e vindo de Belo Horizonte. Os minutos que passava ali sentado uma vez por ano me bastavam. Ficava imaginando Jean-Paul Sartre chegando com Simone de Beauvoir. O que eu teria para dizer a eles com o meu francês ruim?

Foi em Paris que aprendi a cozinhar, a descascar batatas, fatiar cebolas, temperar pepinos, amassar alho, selar berinjelas. Foi em Paris que aprendi a comer pamplemouse com colherzinha, a gostar de carne de carneiro temperada com harrissa, a molhar as tiras de pepino no molho de iogurte grego.

Paris para mim é e não é um passeio à beira do Sena nessa época de outono, uma lambida no sorvete de manga do Bertillon a caminho da Notre Dame, hoje apenas cinzas. Paris para mim é escrever poemas ao lado de um copo de Perrier com uma rodela de limão siciliano num bar qualquer do Marais.

Mas é também o boeuf bourguignon mal feito do restaurante Mabillon, onde nós universitários comíamos de segunda a sexta. É também a recordação de uma gelatina endurecendo no peitoril da janela por falta de uma geladeira, um tatame no chão por falta de uma cama da Habitat e de roupas comuns dependuradas no vão da janela por falta de um armário. 

Se um dia essa pandemia se for, vou ouvir uma voz dizendo que dentro de poucos minutos pousaremos no Aeroporto Internacional Charles De Gaulle. Vou apertar os cintos, calçar o tênis, colocar a cadeira na posição vertical e ficar olhando na telinha o avião sobrevoando e circulando a cidade amada.

O avião vai pousar, vou descer, percorrer correndo enormes corredores até chegar na porta principal e pegar o ônibus 131 até Denfert Rocherreau

Quero parar numa banca pra ver a capa do último número do Charlie Hebdo, sacudir e tomar uma Orangina, comer um pain au chocolate, passar a tarde observando os livros dos buquinistas expostos na murada do Sena. Descer as escadas rolantes dos Halles, entrar na Fnac para observar mil e um livros novos e, ao lado, comprar um incenso une après-midi sous um figuier, porque Paris me viciou em figos, em livros, em Orangina, em pamplemouse, em poesia e em incenso, desde aqueles anos hippies. 

 

4 comentários em “QUERO IR PARA PARIS, PARIS NÃO HÁ MAIS

  1. Lindo texto.
    Se há tristeza na nostalgia, há alegria e beleza na memória.
    E essa recordação não se acaba. Ela se acende e inflama cada vez que lembramos nossa paixão pela vida digna de ser vivida.

  2. Olá, Alberto, Paris já não havia antes da Pandemia. Tb conheço está cidade do meu coração como a palma de minha mão, mas , dos atentados para cá, tudo mudou. Conheci Paris em 1968 e foi paixão à primeira vista. Morei lá em 1985 e tenho ido sempre, com aquela sensação de que estou voltando para casa. Só de andar pelas ruas, sinto um prazer tão grande, que, atualmente, digo que estou sofrendo de sindrôme de abstinência de Paris.

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